Arte na beira da estrada

Arte na beira da estrada

Pedaços de metal de enxadas velhas e de facões são usados para fazer as ferramentas utilizadas por Erisvaldo Rodrigues Pereira, 46 anos, que transforma tocos de madeira em arte.

À beira do km 740, da BR-116, em Boa Nova, os sons mais comuns são os motores dos caminhões que passam pela rodovia mais importante do país, o escavar com improvisadas coifas e os golpes de facão que moldam gamelas, desempenadeiras, colheres de pau de diferentes tipos e tamanhos e até jogos completo de café feitos de umburana.

Erisvaldo trabalha com madeira desde os 16 anos por influência de um tio. Segundo ele, o aprendizado se baseou na observação.

Na região, muita gente que trabalha com este tipo de artesanato. Nas barraquinhas, às margens estrada, as colheres e gamelas são os produtos mais comuns. Para fugir da concorrência, o artesão boa-novense criou novos produtos e treinou paciência.

“Para fazer garrafas e bules precisa ter calma. Se não tiver, bota tudo a perder. A madeira racha” – explica.

Paciência também é necessária para buscar a matéria-prima de seu trabalho, há 12 quilômetros de distância. Ele vai até uma propriedade que permite o recolhimento de pedaços de umburana, cortados há quase uma década, para reaproveitamento. Embrenhado no mato, com ferramentas rústicas, o artesão corta pedaços de tocos.

“É reaproveitamento de madeira, não é tronco para derrubar. Madeira que foi cortada há muitos anos, toco queimado. Tem uma tora caída, eu vou lá e lasco ela com o machado. Tiro os pedaços mais ou menos da forma que eles vão ficar” – explica.

Esta providência é fundamental. Ela define o preço que será pago ao dono de terreno – a cobrança é feita por dúzia de peças – e para aliviar o peso na hora de voltar para casa de ônibus.

Erisvaldo tem cinco filhos, nenhum deles quis seguir sua profissão. O artesão ganha entre R$ 1.200 e R$ 1.500 mensais, vendendo seus produtos nas feiras de Poções, Esplanada e Vitória da Conquista.

Eventualmente, um dos meninos ajuda o pai a lixar as peças com um ralador feito de uma lata de sardinha furada com pregos (ver vídeos abaixo que mostram o processo de fabricação das peças).

FABRICAÇÃO

DEMONSTRAÇÃO

O artesão inicia a produção esculpindo a peça bruta com um facão.

“Você tem que ir assuntando para ver se está mais ou menos no tamanho. Tem que ficar assuntando de um lado e do outro” – ensina.

No caso de um bule, por exemplo, usa-se tampas redondas de latas para riscar o topo e o fundo que será escavado com uma coifa rudimentar. O bule leva uma manhã para ser concluído, incluindo o processo de lixamento e a utilização de uma faca cega para retirar eventuais excessos.

Apesar de trabalhar com lâminas e facões, Erisvaldo conta que nunca se machucou.

Para ele, as peças mais fáceis de serem produzidas são as colheres. De diferentes tamanhos, seus preços variam de R$ 2 a R$ 10. Já as bandejas em forma de folha e as gamelas custam R$ 20 e o jogo de café com seis xícaras vale entre R$ 40 e R$ 100, dependendo do tamanho.

Há ainda machucadores de temperos (o mais barato é R$ 10) e pilões. O mais caro, usado para pisar café, sai por R$ 200. No entanto, o produto mais vendido é a desempenadeira de pedreiro.

“As minhas são feitas em peça única, sem pregos para segurar o cabo. Para produzir uma é preciso encontrar madeira bem grossa. As lojas vendem por R$ 10 ou R$ 12 reais as que têm pregos. Eu cobro R$ 20, mas elas duram muito mais”.

até a raiz

No quintal da casa do artesão, tem um pé de imburana fêmea, que ele faz questão de mostrar. Erisvaldo acrescenta que a madeira “não tem como dar caruncho nem cupim”, pois é resistente.

A casca da umburana também tem propriedades medicinais. Serve para gripe e problemas pulmonares.

Depois de mostrar a árvore, o artesão busca um saco com diversas peças que mantém para vender para quem o procura em casa. A maior colher de pau, feita com a raiz da árvore, chama atenção. Serve para buscar caldo bem no fundo dos panelões.

Apesar de apaixonado por sua arte, Erisvaldo desempenha, às vezes, o papel de pedreiro.

“Não dá para dispensar serviço” – diz.

Feito de umburana

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *