Memórias de Nazinha

Memórias de Nazinha

Ana Costa Ramos, a Nazinha, estava grávida do filho Gildásio quando “o negócio da tal revolução de 1964” apareceu em Iaçu, na região centro norte baiana, a 279 quilômetros de Salvador.

A dona de casa morava próximo ao depósito da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro e conversava com as vizinhas, quando policiais e soldados do Exército chegaram em uma caminhonete e um jipe preto, armados.

“Primeiro deram um bocado de sopapos no chefe do depósito, Dr. Roberto. Depois bateram muito no prefeito Zé Carlos. Meu marido estava trabalhando. E comecei a me sentir mal” – recorda.

A situação piorou quando o irmão de Nazinha, que vinha da estação de Queimadinhas trazendo o filho que estava doente e a mulher, foi rendido. Um dos agentes apontou a arma e perguntou se ele era Vicente Neves, procurado pela ditadura. Ao mesmo tempo, outro vizinho, chamado Sebastião, foi preso.

Nazinha piorou. Seu marido, Pacífico, alertado, correu para casa e a levou para um médico, em Itaberaba. Ao saber do episódio, o doutor mandou fechar as portas “porque a tentação (golpe militar) já tinha chegado por lá”. Depois, deu o diagnóstico:

“Se a criança não mexer, ela vai abortar”.

O menino nasceu no dia 6 de maio, 21 dias depois da ocupação militar em Iaçu.

Esse episódio horrível, no dizer na futura primeira-dama, iria marcá-la para sempre.

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1

“Meu nome é Ana Costa Ramos. O Ramos é do marido, o Costa é do meu pai. Tenho 79 anos, fiz em janeiro. Estou perto dos 80. Nasci, criei, em João Amaro (distrito de Iaçu). Depois quando eu tinha 13 anos, meu pai foi morar numa fazenda, em um lugarzinho pequeno, Queimadinhas, lá perto de Bandeira de Melo. Então nós fomos para lá. Meu pai foi ser gerente de uma fazenda nesse lugar. Chamava Larga. Diz que antes era Mata do Folha e depois passou a se chamar Larga.

Acontece que eu não me adaptei lá de jeito nenhum. Até minha mãe não acostumou. Ela começou a dizer que queria voltar para João Amaro, mas meu pai disse que era muito longe. Pedi para ele deixar porque ela poderia levar os sete filhos (quatro homens e três mulheres).

Eu ia cursar o terceiro ano no ano que fui embora para lá.  Falei para o meu pai que não tinha escola para os mais novos.

“E como a gente fica desse jeito? ”

Ele respondeu que queria a gente perto.

Insisti:

“Ô pai, dá um jeitinho e aí a gente vai”

“Tá, eu vou ver o que a gente pode fazer”.

Quando ele foi para a fazenda disse para a mãe que a gente ia voltar para João Amaro.

O pai voltou e disse:

“Ó vocês, vê aí quando é que vocês querem ir”.

“Ai, meu Deus! Pra semana” – respondeu a mãe.

Ele ajeitou tudo e a gente veio. Era de trem nessa época. Não tinha carro. Aí a gente veio para João Amaro”.

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2

“Minha irmã mais velha, Cecé, foi aprender bordar à máquina quando voltamos para João Amaro. Eu aprendi corte e costura. O outro irmão foi aprender a arte de marceneiro. O mais velho dos homens ficou lá com ele (o pai). E os dois mais novos, José Sodré e Mundinho foram para a escola estudar. E nós ficamos por aí. Lá vai, lá vai…

(A sétima filha, Ida vivia de cama porque teve uma isquemia aos 13 anos)

Minha irmã casou. Foi morar nessa Queimadinhas. Passou uns dois anos, casei também. Fiquei dois anos e meio em João Amaro, depois mudei para Iaçu.

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3

“Meus pais se chamavam Herculano Costa Almeida e Idalina Sodré Almeida. O nome do meu marido era Pacífico Teixeira Ramos. Olha ali! (Aponta para foto de seu Pacífico e o filho Gildásio, o Tó, ao lado de Tancredo Neves).

Conheci meu marido em João Amaro. Ele morava lá muito antes dele ser político. Ele começou com o negócio de política quando veio morar aqui em Iaçu. Começou se entrosando com Manuel Pinto Santana, o Nenzinho, que foi prefeito e era uma pessoa muito inteligente. Manuel tinha farmácia, passava medicamento para as pessoas que se davam bem com a medicação.

Pronto, começou com esse negócio de política e eu detestando. Não gosto de política até hoje. De um certo tempo para cá depois que começou esse negócio dessa molequeira na política, aí eu ainda abandonei mais um pouco.

Pacífico afundou dentro (na política). Quando foi para ele ser prefeito pela segunda vez, o irmão dele e um amigo vieram aqui. O irmão dele disse para mim:

“Eu vim falar contigo para tu aceitares Pacífico se candidatar a prefeito”.

“Teixeira, a primeira vez que foi prefeito eu não gostei nada. A segunda é que eu vou gostar, Teixeira? O meu gosto não vai”.

“É, Nazinha, mais deixa”.

Ele começou falando, falando. Aí o outro disse:

“Ô dona Nazinha deixa, deixa”.

“Vocês são responsáveis pelo que eu passar, viu? ”.

Aí foram falar com ele, que ficou na maior alegria do mundo. E aí não é nada não, eu rapei foi seis anos.

A primeira vez só foram dois anos (entre 1971 e 1972). Foi pra, como é que diz: controlar a coisa que estava descontrolado. Eu tinha Gildásio pequeno. Depois foram seis. Só mais tarde é que começou a ser quatro anos.

“Foi sei anos que eu rapei, não é nada não. Hahahai. Ai, ai…”- suspira

(Pacífico, conhecido como Chico Preto, foi eleito em 1982. Todos os mandatos dessa época foram acrescidos de mais dois anos para que fosse garantido o fatiamento das eleições bianuais e para coincidir com o tempo de governo dos prefeitos de capitais eleitos pela primeira vez de forma direta em 1985.)

Trauma deixou Nazinha desgostosa com a política. Foto: Paulo Oliveira
Nazinha foi primeira-dama de Iaçu duas vezes

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4

O que houve que a senhora passou para detestar tanto a política?

“O trabalho, a preocupação. Foi isso que eu não gostei. O trabalho em casa. Eu sozinha para cuidar de muita coisa. Só tinha uma menina com idade de 16 anos que me ajudava. Era essa A casa vivia cheia de gente. Foi isso. E eu detestei.

Ele (o marido) arranjava pessoa para me ajudar, mas quando vinha eu fazia mais do que quem vinha. Aí não gostei não, viu velho? De jeito nenhum.

Vinham sempre políticos. Vinham de Feira de Santana. A primeira vez que ele foi prefeito vinha Oscar Marques, que o povo chamava Oscar Tabaréu. Vinha Chico Pinto. Vinha esse menino, como era o nome do outro… Abelardo Veloso passava por aqui. Esse outro que tem o hospital com o nome dele, que foi governador, como é? Roberto Santos vinha por aqui também.

Eles não conversavam comigo sobre política, conversavam era com Seu Pacífico, comigo não. Hoje as mulheres participam da conversa, de antes não. Eu não ia lá ver conversa deles.

Vinha sempre um batalhão de gente junto com eles. Aí eu sofri como sovaco de aleijado (risos) com a muleta.

Também ficava preocupado quando com as viagens dele. Não sabia o que ia acontecer por lá. Às vezes ia pedir alguma coisa ao governo. Ele foi para São Paulo, duas ou três vezes, e eu ficava preocupada com as viagens dele.

Pacífico não falava comigo sobre questões políticas. Eu não entendia a coisa. Ele não pedia conselho, eu também ficava quieta.

Depois de ser prefeito, Pacífico continuou na política, mesmo depois de dizer para mim e para minha irmã que não queria mais saber disso. Ainda outro dia eu estava lembrando disso. Quando o freguês que ele ajudou a eleger estava deixando o cargo, olha ele se candidatando de novo. Essa política é um negócio parecendo uma doença. O cara quando entra, como é que diz, dá uma boiada para não sair. É um negócio sério.

(A preocupação de dona Nazinha também estava relacionada ao fato do marido pertencer ao MDB, partido que fazia oposição à ditadura civil militar)

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5

“Tive dois filhos, Gildásio e a Pat (a jornalista Cleidiana Ramos). Ela nasceu em Cachoeira, na Santa Casa de Misericórdia. Agora o menino nasceu em Rui Barbosa. Se deixar, ela afunda dentro da política. Aquilo é um negócio sério. O outro era assim, mas depois ele deixou. Ele não liga mais para isso. Se for para ajudar em alguma coisa, ele ajuda. Mas para ir dentro como antes, não. Mas ela, ô Jesus Cristo, ali é um negócio sério. Vivo dizendo para ela:

“Para com isso. Deixa o barco correr porque não pode ser assim”.

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6

“De vez em quando eu vou a João Amaro porque meu marido é sepultado lá. A família dele toda era João Amaro. Minha mãe e minha família também são sepultados lá. Morava lá meu tio que faleceu há três anos. Tudo sepultado no cemitério velho. E aí sempre vou visitar a sepultura deles. Levar flores para colocar. Agora vela é que eu não acendo.

Estou viúva há 13 anos. Oito de junho fez treze anos. Só vou lá assim. Agora mesmo, São João eu não fui. A minha ex-nora passou aqui. “Vambora”. Não fui. Estava recente que meu último cunhado morreu e acabou os irmãos dele (Pacífico) ”.

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A jornalista Cleidiana Ramos considera que a história de 1964 foi decisiva para o pai entrar na política. Seu Nenzinho, sócio de Pacífico, era prefeito e foi acusado de participar da tentativa de levante na rede ferroviária. A acusação foi considerada retaliação da família Medrado, os “coronéis” da cidade à época porque Nenzinho os derrotou na eleição de 62.

Além disso, o irmão de Pacífico, Teixeira teve que fugir para não ser preso. Nessas idas e vindas, o futuro prefeito de Iaçu foi um dos fundadores do MDB, em 1971, posicionando-se contra a ditadura e o latifúndio. Sabendo das preocupações de Nazinha, não contava a ela o que se passava.

Depois de dois mandatos, Pacífico voltou a se candidatar a prefeito em 1992 e 1996; e a vice, em 2000.

A terceira candidatura teve como objetivo evitar que o partido desaparecesse.

Na quarta, perdeu por 41 votos. Quando estava descontando uma diferença de 100 votos, ocorreu um apagão durante a apuração.

Jornalista, 55 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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