Boa Nova dá show de cultura com reisados – Meus Sertões

Boa Nova dá show de cultura com reisados

Boa Nova dá show de cultura com reisados

Do entroncamento de Boa Nova até a sede do município é preciso superar 16 quilômetros de uma estrada sem acostamento, sem sinalização, com risco frequente de um boi ou vaca atravessarem a pista estreita que serpenteia uma serra. Apesar do risco e da concorrência de um show de música sertaneja que ocorria no povoado de Penachinho, dezenas de pessoas preferiram pegar o caminho arriscado para ver a oitava edição do Festival de Reisados de Boa Nova (BA).

Mesmo sem patrocínio, sem premiação e sem apoio do Fundo de Cultura e das secretarias estaduais de Cultura e Fazenda, o evento, promovido pela família Ferreira, reuniu 15 grupos do município e de cidades da região para se apresentarem nos dias 13 e 14 de janeiro, a fim de preservar uma cultura que está se acabando em muitos lugares por motivos diversos, incluindo a morte dos idosos, a falta de interesse dos jovens e a conversão de parte da população em evangélicos.

“Em Manoel Vitorino, a gente está perdendo muita gente da cultura por conta da religião”, diz a professora Nilcéia Pimenta Hohlenwerger, 70 anos.

Ao criar o reisado Raiz do Umbuzeiro, há dez anos, para evitar que os alunos das turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da escola Roberto Kennedy deixassem de faltar às sextas-feiras, Nilcéia resgatou de uma única vez quatro tradições que estavam se extinguindo na cidade: o Terno de Reis, o Samba Comum (ou as sambadeiras), o Bumba Meu Boi e a Mulinha de Ouro.

POPULAÇÃO E RENDA

Boa Nova, de acordo com o censo de 2010, tem cerca de 15.400 habitantes e está a 444 quilômetros de Salvador. O percentual de pessoas empregadas é de 6,4% e o rendimento médio destes trabalhadores é de 1,8 salário mínimo mensais (R$ 1.717). Cinquenta e três por cento da população tem renda de até meio salário mínimo (R$ 477).

É essa população empobrecida que faz questão e ajuda a promover o Festival de Reisados, que praticamente não tem nenhuma divulgação.

“Das oito edições, conseguimos apoio do Estado em quatro. Nessas ocasiões, demos uma ajuda de custo para os ternos para eles comprarem vestes e equipamentos. Esse ano o governo não lançou edital. Fizemos parceria com a prefeitura, para conseguir os toldos, a iluminação e parte da alimentação. Já a comunidade doou dois bezerros e dois bodes para realizarmos um bingo e arrecadar dinheiro para as despesas com transporte” – conta Isaílson Ferreira, o Zai, 38 anos, um dos realizadores dos festejos.

O sorteio foi realizado uma semana antes do Festival e teve rendimento líquido de R$ 3 mil.

Desde a primeira edição, criada pelo Instituto Via Magia de Salvador, os Ferreira decidiram que não haveria concurso nem premiação. Acreditam que a premiação “acaba um pouquinho com a cultura”, pois quem perde se acha injustiçado e fica desestimulado.

 “Cada terra tem cultura própria, não tem uma definição assim. Tem uns que adotam a questão dos reis. Outros preferem a mulinha. Há os que juntam a mulinha com o boi. Uns são mais organizados, outros têm samba melhor” – explica Zai.

Ele dá a mesma resposta todo ano para quem lhe pergunta quem foi o vencedor:

“Foi a cidade”

O CORTEJO

Todos os reisados são recepcionados na creche do município. Lá lancham e se preparam para o cortejo, que desfila pela avenida Nossa Senhora de Boa Nova, liderado pelas Pastorinhas, terno infantil com mais de 100 anos de existência.

Após o desfile, começam as apresentações por volta das 19 horas. No primeiro dia, oito reisados deram seu show. No domingo, sete.

Em torno dos três toldos cedidos pela prefeitura, cerca de 300 pessoas assistem grupo por grupo. Os organizadores lamentam que as emissoras de televisão da região não apoiem, nem cubram o evento.

Além de organizar o Festival, os Ferreiras se apresentam com dois grupos: os mirins, no sábado, e os adultos, no domingo. Somados são quarenta componentes. Cada terno tem entre 30 e 35 minutos para se apresentar, com mais cinco de tolerância.

Este ano, além deles, se apresentaram os ternos das Pastorinhas (Boa Nova), do Lagoão (Boa Nova), Raiz do Umbuzeiro (Manoel Vitorino), Dona Laurinha (Dario Meira), Lagoa do João (Poções), Lagoa Nova (Barra da Mamoneira), Alicate (Bom Jesus da Serra), Seu Amaran (Rio do Chumbo), Estrela do Divino (Poções), Entroncamento (Boa Nova), Goiabeira (Boa Nova), Sagrada Família e São Roque (Passagem do Engenho) e João das Cobras.

Para o próximo ano, os organizadores esperam realizar bingos e rifas com mais frequência para garantir a realização do Festival com mais tranquilidade. Por falta de verbas, em 2018 não foi possível contar com dois grupos de Jequié. O próximo encontro de reisados está marcado para os dias 12 e 13 de janeiro de 2019.

PASTORINHAS, de boa nova

Tradicionalmente, o encontro de reisados é aberto pelas Pastorinhas, formadas por crianças entre 6 e 12 anos. Criadas há cerca de um século, a gurizada visita casas de Boa Vista que montam presépios, entre os dias 25 e 6 de janeiro. Elas louvam as lapinhas, cantam e recebem doces em retribuição. Seus principais instrumentos são triângulos e timbaus, aliados ao coral. Algumas pessoas definem as pastorinhas como meninas-jesus que colhem os últimos girassóis.

As Pastorinhas é um grupo de crianças com idades entre 6 e 12 anos, existente a mais de 100 anos, em Boa Nova. Foto: Reprodução do blog Boa Nova uma utopia.
As Pastorinhas existentem a mais de 100 anos. Reprodução do blog Boa Nova uma utopia.
TERNO RAIZ DO UMBUZEIRO, de Manoel Vitorino

Criado pela professora Nicéia Pimenta Hohlenwerger, tem 45 componentes, quase todos descendentes de antigos reiseiros. Netos dos primeiros participantes estão sendo treinados para dar continuidade ao projeto, que conta com a parceria do ISFA (Instituto de Formação Cidadã São Francisco de Assis). O terno se apresenta em praças e escolas. Em 2016, subiu ao palco do Teatro Castro Alves, em Salvador. No ano anterior, fez um espetáculo no Palácio da Aclamação, também na capital do estado.

Na apresentação de sábado, o terno começou com a saudação aos reis, cantando “Flor da Maravilha”. Depois foi a vez das sambadeiras do antigo grupo Samba Comum. Além destas tradições, o Raiz do Umbuzeiro resgatou a do Bumba Meu Boi e da Mulinha de Ouro.

“A senhora que fazia o boi e o senhor que tinha o boi e a mulinha de ouro não faziam mais por causa da idade. Teve outra senhora que ficou evangélica e não saiu mais. Então essa cultura estava acabando. A gente está resgatando” – diz Nilcéia.

A mulinha feroz é a única que consegue controlar o boi. Uma das músicas entoadas nessa parte diz o seguinte:

“Desamonta seu vaqueiro/Que o café mandei coar/ Mula brava, sinhá dona/ Mula brava, sinhá dona/ Não posso ‘desapiá’”.

O Raiz do Umbuzeiro ensaia o ano todo, às quintas-feiras, no ISFA, das 19h30 às 21h30. O reisado inteiro tem 25 versos. No Festival, foi cantado metade do repertório. Durante o enredo também foi incluída a música de uma cigana que era cantada pelas sambadeiras que faziam parte do grupo Samba Comum.

Cabelo da cigana

“O riacho cheio esvaziou/ O cabelo da cigana o riacho carregou/ Carregou, eu vou buscar / Não vou criar cabelo pro riacho carregar”

Samba

“Balancê, balancê, balancê/ Quero ver balancear/ Quero ver cordão de ouro/ No pescoço de Iaiá”

 

BOI DE DONA LAURINHA, de Poções

Aurenilton Pereira dos Santos, o Nilton, 56 anos, assumiu o comando do Boi quando a mãe, dona Laurinha, morreu, aos 74 anos, ano passado. Laurinha sempre foi uma ativista cultural. Ela fundou o Terno das Pastorinhas de sua cidade, o Terno da Cigana, o Terno Girassol, o Terno de Reis e o Bumba Meu Boi.

Com o apoio dos foliões e da família, Nilton decidiu dar continuidade ao trabalho, iniciado há 54 anos. A ordem de apresentação do Boi de Poções é invertida. A primeira parte é o Bumba Meu Boi, depois o samba e o Terno de Reis.

Hoje foram duas apresentações Bumba Meu Boi e Terno de Reis. A primeira parte foi Bumba Meu Boi, depois nós passemos para o Samba de Roda com Terno de Reis.

Nilton conta que a história do Boi começa quando a mulher de um vaqueiro, grávida, teve o desejo de comer a língua do animal preferido do fazendeiro. A mulher insistiu e o marido matou o boi. O fazendeiro descobriu e expulsou o vaqueiro. Neste ponto, a história tem outras versões. A mais comum é que o fazendeiro chama um pajé que ressuscita o animal. Depois, perdoa o funcionário que matou o bicho.

Além das oito edições do Festival, o Boi de Laurinha já se apresentou na Bacia do Rio de Contas, na Concha Acústica de Salvador e nas cidades de Vitória da Conquista, Jequié e Ibirataia.

“Trabalhamos certinho, batemos tudo certinho, cantamos o samba do boi. O samba não é um só, não canta repetido” – explica Nilton.

Dentre os foliões do grupo está Arnaldo Lopes da Silva, 65 anos, gaiteiro desde os oito. Ele e dois irmãos fazem parte do Boi. Outro personagem importante é o boiadeiro, que se chama Paulo Tomé.

MIRIM DOS FERREIRA, de Boa Nova

Formado pelas crianças da família Ferreira. Canta músicas feitas por seus avós e por componentes atuais do Terno. Dentre elas, a que cita um esquilo brasileiro:

“Caxinguelê/ Ô bicho danado/ Subiu no palco/ Com rabo empinado”.

As crianças usam fantasias e a apresentação dá valor aos cantos e a lenda do boi.

REISADO QUILOMBOLA DA LAGOA DO JOÃO, de Poções

Carlito Ferreira da Fonseca, o Carlito Feiticeiro, fala sobre o terno do qual é mestre:

“Óia, meu senhor. Nós somos raiz. Nossos pais era cantador de reis. Tem 20 anos que assumi o comando. Os velhos foi acabando e eu fiquei. Hoje eu sou mestre.

Tão acabando a tradição, a modernagem não estão querendo, mas nós não quer deixar a cultura acabar, pois é uma coisa de raiz, umas coisas que vem acontecendo há anos, né? Nós somos do quilombo da Lagoa do João. Atoncê, Boa Nova convidou nós. Vai fazer três anos que nós tamos vindo aqui. Nós gostou da festa, que nós gosta do esporte. Nós tamos ajudando eles e eles ajudando nós.

Esse reisado existe desde nossos bisavô. Nem sei quantos anos tem. É desde o tempo dos escravizados. É como você viu aquele Pajé, mostrando lá aquelas coisas, vem dos escravidão. O Pajé (componente do reisado) é da nossa região. É o mais velho da turma. Entoncê é ele que comanda nós. Nós tem duas partes. Nossas bisavós eram índias e negras.

Eu também sou chamado de Carlito Feiticeiro. Isso foi um prefeito de Poções, Antônio Gordo, que me botou esse apelido. Não sei nem fazer o pelo sinal, mas ele me botou Carlito Feiticeiro.

Só não faço tocar violão, mas assim mesmo, no mais tudo a gente mexe um pouco. A gente monta no bumba também.

Nós veio praqui com 35 pessoas, mas tem mais no grupo. Nós representa só na região mesmo. No primeiro de janeiro, quando a gente sai cantando no interior. A festa no quilombo é no dia 20 de novembro.

Nossa comunidade fica a 30 km de Poções. Agora vamos nos representar na Lagoinha de São Bento. Faço parte dos reis desde 15 anos. Hoje tenho 60 e seis mês”

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Outros componentes do reisado são Eurídes Ferreira, 72 anos, percussionista, violeiro e sanfoneiro, e seu irmão Osvaldo, o Pajé da Pimenteira, que se apresenta com objetos de madeira que simbolizam a escravidão e o cangaço.

Eurídes conta que desde criança acompanhava os pais reiseiros. Além de tocar no terno, ele participa do Grupo Guardiões do Forró. Ele diz que o reisado precisa de apoio e patrocínio.

Enquanto isso, Pajé desfila com seus objetos. Ele explica que um deles representa a navalha usada pelos capoeiristas nos pés. A corrente simboliza a prisão dos negros escravizados e a chibata, o castigo.

Mostra ainda uma palmatória. “Do tempo que os velhão antigo batia nos filhos para dar um conselho. E nas escolas quando a criança não fazia a lição direito, davam meia dúzia de bolo para ensinar”.

Pajé explica que a pistola de madeira que carrega é do tipo que antigamente era chamada de “cu de boi” para defesa pessoal. A colher de pau é para lembrar a comida que era feita para Maria Bonita, assim como o chapéu de couro é para recordar Lampião. Os bilros são lembranças de sua mãe que fiava linha para fazer “combinações para as mulheres que faziam o pedido”.

Por fim, Pajé mostra o que chama de chicote chinês, “uma arma perigosa, proibida, só permitida para mestres de capoeira”.

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Miguel Clarindo Araújo, 54 anos, o Miguel Quilombola é o representante da comunidade. Ele pede a palavra para explicar que Poções tem três comunidades reconhecidas como remanescentes de escravos: Lagoa do João, Vassouras e Pimenteira. Ele afirma que os quilombos surgiram há cerca de 200 anos e nele residem 500 famílias.

Miguel pede para que o governo estadual conclua a instalação de energia elétrica rural e ressalta que o movimento de consciência negra tem que ser colocado em prática todos os dias.

 

REISADO DE LAGOA NOVA, Boa Nova

Moacir Gonçalves Costa, 78 anos, é mestre há 55. Seu reisado tem 12 integrantes e participa do Festival pela primeira vez. O convite chegou há 15 dias, mas ele não tinha certeza de poder participar porque uma de suas irmãs está doente. No grupo há cinco filhos e um neto de Moacir, que é gaiteiro e toca só com uma das mãos porque um dos braços não tem movimento.

Há décadas, seu Moacir também comanda o reisado peregrino, fruto de uma promessa que ele diz ter se concretizado. De 1º a 6 de janeiro, ele canta e dança de casa em casa. No derradeiro dia, ele reza a ladainha e distribui comida para todo mundo que chegar em sua propriedade. Normalmente, ele mata um porco de três a quatro arrobas (45 a 60 quilos), bode e galinhas. Isto também faz parte do que foi prometido aos Santos Reis.

Este ano o Terno de Lagoa Nova andou oito léguas (48 km) cantando reis. Segundo seu Moacir, a recepção na comunidade Segredo foi calorosa. Apesar de distante, ele pretende retornar em 2019.

O grupo de Moacir encerrou as apresentações de sábado do Festival de Reisados.

 

Jornalista, 55 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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