As marcas da ferrovia

As marcas da ferrovia

É muito difícil encontrar um morador de Iaçu que não tenha uma história relacionada com a ferrovia que corta a cidade. André da Caçamba, por exemplo, passou 23 dos seus 60 anos, trabalhando como agente de estação, liberando a saída de trens. Telegrafista, hoje caminhoneiro, mora em uma das casas que eram destinadas aos antigos empregados da Rede Ferroviária.

André se orgulha de ter adquirido a residência em um leilão. Diz que pagou o imóvel em cinco anos e teve o cuidado de mantê-lo da forma original. Ao contrário dos vizinhos que descaracterizaram as construções, o ex-telegrafista só trocou as telhas e “botou piso” nas pilastras do alpendre.

Ele lembra que quando o leilão foi anunciado alguns colegas decidiram não participar, alegando que tinham direito adquirido e não iam pagar nada.

“Foi aí que um amigo meu, homem direito, e a família dele foram despejados e passaram a ter muitos problemas” – recorda.

As residências ficam diante da Praça dos Ferroviários, onde os monumentos são um vagonete e um antigo truque.

ORIGEM

A região de Iaçu era primitivamente habitada por índios cariris e sabujás. O povoamento começou no século 19. Com a chegada dos trilhos da Rede Ferroviária Federal Leste Brasileiro, formou-se um povoado que adotou o nome da fazenda ali existente: “Sítio Roxo”. Dois anos depois, foi elevada à condição de vila. E, em 1938, trocou o topônimo para Paraguaçu. O município surgiu 20 anos depois e passou a se chamar Iaçu, palavra tupi que significa rio grande.

Pesquisadores afirmam que é muito difícil encontrar referências ao trem de passageiros e carga que ligava Senhor do Bonfim e Iaçu. O tráfego entre as duas cidades começou em 1917 em duas linhas isoladas. Elas só foram conectadas em toda extensão em 1951.

O “Trem da Grota” percorria o trecho em 14 horas. Para os passageiros eram destinados três carros e duas classes. A primeira com poltronas estofadas e a segunda com bancos de madeira. Havia quatro saídas semanais

Estação, pátio, sino, sala de espera…

 

O trem de passageiros foi desativado em fevereiro de 1977, mas as cargas continuaram a seguir pelo ramal até que aconteceu o acidente no trecho entre Iaçu e Itaberaba, seis anos depois. Segundo o site www.estaçoesferroviarias.com.br há duas versões para o fato.

Na primeira, contada por Luciano Costa, meninos de rua soltaram os freios de todos os vagões carregados de cimento. Eles desceram em alta velocidade. Ao chegar na ponte de ferro, o peso elevado a fez ruir.

A segunda versão consta do blog licuri.wordpress.com e é narrada por Marcos Gusmão. Segundo o autor, em 23 de dezembro de 1983, alguém não identificado soltou os freios. O comboio ganhou velocidade no declive e bateu em outro trem que estava parado no meio da ponte.

“O estrondo foi ouvido em quase toda a cidade (…) Um dos vãos da ponte não suportou o impacto e o peso provocado pelos vagões encavalados e cedeu. Como o transporte via ferrovia estava em decadência ninguém se deu ao trabalho de consertar o estrago. Iaçu perdeu parte da ponte e ganhou um cartão postal exótico” – conta Gusmão.

Oficialmente em 1994, dois anos depois da então Rede Ferroviária Federal S.A, sucessora da Leste Brasileiro (1957), ter sido incluída no programa nacional de desestatização, o ramal de cargas foi desativado oficialmente.

No entanto, os trens carregados com minério, grãos e fertilizante continuaram a circular no entroncamento Iaçu-Salvador e pela EF 116 (Fortaleza (CE) – Jaguarão (RS), no trecho Iaçu-Campo Formoso.

surge a vli

Com a privatização, a então companhia Vale do Rio Doce assumiu o controle da antiga Malha Centro Leste Brasileira, com 7.080 km de trilhos. Em 2011, foi criada a VLI (Valor da Logística Integrada), empresa formada para administrar os ativos de carga geral da Vale. Após a devolução de trechos deficitários, a multinacional  vendeu a maioria de suas ações.

A Mitsui, conglomerado de empresas fundado no Japão em 1673, adquiriu 20%. O Fundo de Investimentos do FGTS, gerido pela Caixa Econômica Federal, ficou com 15,9%. Já a Brookfield Asset Management, fundo de pensão canadense, arrematou 26,5% da VLI. A Vale perdeu o controle acionário da empresa, que criou um novo sistema de governança.

TREM DE CARGA

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