Reza para apagar fogo

Reza para apagar fogo

Maria já não sabia mais o que fazer. Os filhos viviam doentes. Era febre, dor de cabeça; às vezes, pegavam a vomitar.

Nos momentos de maior desespero, procurava atendimento médico em Amargosa, a 54 quilômetros de distância de Itatim, onde mora. Saía de casa com os meninos fervendo, chegava no hospital e a febre desaparecia.

O sofrimento era tantos que ela rezava, pedindo a Deus para ajudá-la. Dos sete filhos, um morreu quando tinha 11 meses.

“Um dia, dormindo, vi chegar uma mulher toda de branco, me ensinando a rezar. Aí acordei com aquilo e até hoje estou assim. Rezo o povo, rezo menino, rezo adulto. E graças a Deus, tudo fica bem (sic). Meus filhos não deram mais problemas” – conta.

No sonho, Maria da Silva Oliveira, hoje com 58 anos, diz ter aprendido todas as rezas que sabe de uma vez. Ela combate olhado, ventre caído, ventosidade, ar do vento, fogo selvagem, erisipela, dor de umbigo, cólica…

“E apaga fogo quando pega no morro, quando pega no mato. Ela reza tudo” – acrescenta a filha Claudinéia Andrade, 20 anos.

Maria confirma o que diz a filha. Diz que já evitou incêndios graves. Cita Val de Edinho como testemunha. O agricultor botou fogo no roçado e o fogo foi ganhando proporção. Ele chamou Maria e pediu para ela impedir uma catástrofe.

“Fui lá, rezei, aí o fogo apagou” – relata.

Apagar incêndio com reza é fácil, segundo Maria. Basta uma prece “que não é curta nem comprida”. Ela diz que quando vê o fogo ganhando proporção, chega e fala:

“Vem Nossa Senhora chorando. E as lágrimas de Nossa Senhora apagando”.

Depois das duas primeiras frases se cala. Não pode explicar tudo. Ensinar a prece inteira só para quem vai ser rezador.

“É igual a Salve Rainha. A gente não pode rezar toda, só até o meio e oferecer. Igualmente  curar pessoas, se falar toda, a reza fica fraca. No Salve Rainha o senhor reza todinha para seu uso. O rezador mesmo não faz isso”.

Maria mostra o local do incêndio que apagou (foto principal). Ela é muito procurada na região. Tem orgulho disso. No seu repertório possui ainda uma oração para acabar com lagartas nas plantações.

ERVAS E REMÉDIOS CASEIROS

No início de outubro, época da visita de Meus Sertões, o povoado de Itatim sofria com a seca. O solo da Fazenda Coité é coberto de areia, desértico. No entanto, no quintal da casa de Maria há uma árvore que sombreia vários cacos, onde estão plantadas as ervas que usa para fazer chás. Ela prefere plantar no solo, mas em tempos secos, fica mais fácil regar os vasos. Suas plantas formam um oásis.

“Poejo, hortelã miúdo, alecrim”. Maria vai à frente, mostrando as ervas e dizendo para que servem. O poejo serve para auxiliar a digestão, ajuda a eliminar gases e “para menino que está nascendo dente”. Hortelã e alecrim são boas para o funcionamento do intestino de crianças e adultos.

“Losna, arruda, basco”. A losna tem folhas esbranquiçadas e é utilizada para fazer um xarope bom para auxiliar mulher a parir (favorece as contrações) e chá para descer a menstruação atrasada.

O líder comunitário Antônio do Carmo, 65 anos, acrescenta outro uso para a erva: desintoxica o fígado e minimiza os danos causados pela cachaça.

Já a arruda é para banhos para limpeza de corpo e proteção contra o mau olhado. A erva que chamam de basco é usada em compressa para as vistas.

“Limpa que é uma beleza”, diz Antônio.

Há cerca de 30 anos, Maria da Silva começou a socorrer vizinhos e parentes com suas preces e chás. Aprendeu também a fazer remédios caseiros. Um deles com cabeça e dente de peixe moídos ajuda a conter hemorragia.

A rezadeira nos leva até a sua antiga casa, a 50 metros da nova. Lá, mantém uma cabeça de traíra torrada, pendurada acima de um fogão a lenha. O ingrediente tem cerca de seis anos e que agora é que está no ponto para os remédios, pois está seca e maturada.

“A gente pega, torra, faz o pozinho e o remédio. Serve para muitas coisas de mulher. Para os homens ajuda a diminuir as sequelas de derrames. Meu pai teve um e não morreu. Graças ao remédio viveu mais cinco anos” – conta Maria da Silva.

A cabeça é substituída de tempos em tempos. Ela pesca em um local chamado Olho D’ Água. No entanto, está cada vez mais difícil encontrar peixes por causa da seca e da lama.

O PILÃO DO CARURU

A antiga residência da família Oliveira tem mais de um século. Fica em um terreno à frente de um morro e guarda antigos objetos como um pilão de pedra, usado para fazer o Caruru de São Cosme e São Damião. A peça é citada no relatório enviado pela coordenadoria de cultura de Itatim à Fundação Palmares para que a localidade de Entre Morros seja reconhecida como comunidade quilombola.

Embora o mês dedicado aos santos gêmeos seja em setembro, os moradores da Fazenda Coité e adjacências têm uma outra tradição. Eles pagam suas promessas no mês em que seu pedido foi realizado. O de dona Maria é  janeiro.
 

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RESUMO DA REPORTAGEM

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