Safira e Bento

Safira e Bento

MEMÓRIA TEM CHEIRO

Priscila Godinho Martins dos Santos *

Cheiro daquele lugarzinho, cujo nome é de um santo, o santo casamenteiro: Santo Antônio, povoado de Campo Formoso. A princípio sente-se o cheiro da areia que pairava sobre a porta da humilde casa. O solo do povoado era arenoso. Ao adentrar a casa, sentimos o cheiro das velas acesas no primeiro quarto, nele avistamos duas camas de solteiro, uma era especial, a favorita da “netaiada”. Era uma cama com molas, cujo colchão foi confeccionado pela proprietária da casa, que o encheu de lã do fruto da barriguda, na minha cabeça tratava-se das mesmas galhas com que fazia as vassouras para varrer o terreiro.

Ainda no quarto, temos um altar de Cosme e Damião, para quem a proprietária fazia no mês de setembro caruru e dava doces às crianças da comunidade. Em cima do altar além das velas acesas haviam outras derretidas, assim como as balas dos dois gêmeos que estavam ofertadas a eles dentro de um pires; incrivelmente não se via formigas nas guloseimas! Lembro-me daquela mistura de cheiros de velas e doces. Além do quadro dos santos gêmeos havia em uma das paredes, um de São Sebastião, com uma de suas flechas cravada no peito.

Na sala ficava o instrumento de trabalho da dona da casa, uma máquina de pedal, onde ela costurava várias roupas, lençóis, fronhas, toalhas etc. Era muito boa em seu ofício! O pessoal do povoado a chamava de dona Firinha.

Safira Godinho, bisneta de índia, trazia seus traços de guerreira na personalidade, não fugia da luta. Trabalhava desde criança na roça, ajudando os pais na plantação e mesmo depois de casada e com o ofício de costureira, nunca deixou de ajudar seu companheiro na lavoura.

Contava que adorava ir para roça com seu pai quando criança, só para pedir para ele contar as histórias do Lampião. José Godinho, contava que o cangaceiro e seu bando tinham passado há alguns anos por aquelas bandas, fugindo da milícia.

Dona Firinha tinha os cabelos tão lisos e finos que mal segurava na cabeça quando ela fazia seus penteados – o favorito era um coque que ela prendia com grampos.

O banquinho de Firinha e o recipiente de madeira que Seu Bento usava na feira-livre

Nas horas de descanso, Firinha sentava-se no seu banquinho de madeira, que salvo engano, foi confeccionado pelo seu companheiro. Sentia prazer em sentar-se ali e com sua faquinha preparar o fumo para abastecer seu cachimbo.

Aquele cheiro forte do fumo de rolo logo se espalhava sobre o terreiro! Enquanto ela tragava seu cachimbo, a água do café fervia no fogão a lenha, volta e meia ela ia até lá e com o abanador de palha, trançado por ela, abanava as brasas e virava as lenhas.

Quando o seu companheiro chegava do labor na roça, encontrava a casa cheirando àquele cafezinho fresco. Ele tirava a capanga, que foi feita por Firinha. Vez ou outra trazia licuri e despejava na cuia para que os netos quebrassem os coquinhos com uma pedrinha e os comessem. E guardava seu facão, pendurado atrás da porta da cozinha.

Ah, aquela bainha de facão era a promessa de nos dar castigo quando fazíamos “malcriação”, o que nunca se concretizou. Nunca nos bateu com ela e nem com qualquer outra coisa, bastava reclamar de algo, que já nos comportávamos e sem titubear, prontamente, pedíamos desculpas pelo mal feito.

Sabe quando você tem certeza que alguém faz jus aquele ditado de que é uma alma pra Jesus!? É, ele era essa pessoa. Transmitia uma calma no olhar, uma bondade no falar e uma doçura no abraçar! Era um bom homem. Um mulato lindo e gentil, vindo das terras de Jeremoabo. Seu nome: Bento Cardoso.

Os caminhos de seu Bento se cruzaram com os de dona Safira e por aquelas bandas ficou; constituiu família. Dona Safira engravidou doze vezes, mas só deu à luz a três filhas. Isso, todas meninas. Sofreu aborto espontâneo nas outras nove gestações.

Lembro-me de quando seu Bento chegava da feira puxando um carrinho que trazia farinha de mandioca dentro de um prato de madeira, aquele que se usava para medir. Dentro de uma bacia de alumínio que estava sempre bem arreada, trazia a carne do sol. No carrinho tinha algumas frutas, laranja era a preferida dele. Também tinha doce de banana enrolado nas folhas de bananeira, requeijão e aqueles beijus duros, bem sequinhos que dona Firinha adorava molhar no café ou no leite quente. Quando ele chegava da feira com aquelas “novidades”, era uma alegria só! Ainda trazia uns caramelos para os netos.

Depois do almoço, sentávamos no banco do primeiro quintal e ele descascava laranjas, as cascas pareciam caracóis. Em seguida, partia no meio dando uma banda para cada neto. Enquanto nos deliciávamos chupando as laranjas, ele tirava da jibeira da camisa os papéis de seda e o fumo e preparava seu cigarrinho. Tinha um isqueiro muito bonito que um parente tinha lhe trazido da cidade longínqua naquela época, São Paulo. Não me recordo o nome de quem lhe presenteou, mas lembro-me que ele tinha uma estima por aquele isqueiro.

A casa tinha três quintais, o primeiro quase todo de cimento, menos o canteiro com as plantas medicinais, aliás, as ervas que dona Safira utilizava para fazer chás e para rezar as pessoas que lhe procuravam. Rezava contra olhado, dores de cabeças, náuseas, caxumba, diarréia e tantas outras coisas.

No segundo quintal dividido por cerca e uma portinha, tínhamos o quintal das galinhas. Seu Bento confeccionou um galinheiro para elas dormirem e colocarem seus ovos. Ainda neste quintal tínhamos um pé de manga enorme, que nos dava aquelas deliciosas mangas espadas, suculentas de chupar quando maduras. No finalzinho do quintal estava o roseiral de dona Safira, tinha rosas de todas as cores. Adorava ficar admirando-as desde botões até as rosas desabrocharem; tinha medo de me ferir com os espinhos. Entretanto, passava horas e horas sentindo aquele perfume que elas exalavam!

No terceiro quintal, também dividido por cerca, estavam os pés de bananeiras, nos quais um dia meu irmão colocou fogo não sei como e tivemos que atravessar os outros dois quintais carregando baldes, cuias e latas d’água para conter o fogaréu.  Os vizinhos ajudaram e tudo ficou bem! Aliás, só os cachos queimados das bananeiras que não serviram mais.

Falar de memória é lembrar-se de cheiros, cheiros esses que marcaram minha infância. A única lembrança material que tenho daquele lugar, da casa e dos meus avós é o banquinho de madeira em que minha avó sentava para fumar seu cachimbo e o prato de farinha de madeira, que meu avô levava para feira. Na memória, os cheiros, o afeto, os ensinamentos e muita gratidão de ter convivido parte da minha vida com esses dois seres humanos maravilhosos. Este ano, dona Safira completaria seu centésimo aniversário!

P.S.: Quando minha avó faleceu, na madrugada do dia 27 de dezembro de 2001, entrei em seu quarto, peguei seu xale azul, feito de crochê que cheirava a tabaco misturado com seu perfume, me embrulhei com ele em sua cama, rezei uma Ave Maria e chorei.

(*) Mestranda em História, Cultura e Práticas Sociais. Universidade do Estado da Bahia – UNEB Campus II/ Alagoinhas DECT.

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