A fazedora de bonecos

A fazedora de bonecos

O artesanato está presente na vida de Valerita Santana, a dona Lita, 80 anos de idade e 82, na certidão. A data do documento foi acrescida de dois anos para ela poder votar mais cedo em um tempo que a fiscalização eleitoral praticamente não existia.

Com oito anos, a menina seguia com o tio, dez anos mais velho, para tirar barro da beira do rio. Com enxada, cavador e picareta, os dois arrancavam a matéria-prima. Depois, levavam tudo para a fazenda onde fabricavam, sem usar ferramentas, peças do presépio que seria montado na casa da avó de Lita, durante o Natal.

A experiência fez com que ela passasse a produzir presépios para a igreja e para enfeitar praças.

Durante pouco mais de sete décadas, Valerita conciliou o trabalho na roça com o de artesã, produzindo também colchas de retalho, almofadas e enfeites diversos.

Certa feita, após passar noites em claro pensando em um problema pessoal, decidiu começar a fazer bonecos de gente em tamanho natural. Durante o dia, no mato, catava folhagens e galhos de samambaia para fazer o enchimento e galhos e pedaços de pau para sustentar os braços e pernas. Retalhos viravam as roupas.

A ´terapia’ deu certo e nunca mais perdeu noites de sono com preocupações. Seus bonecos ficaram famosos e passaram a ser requisitados por escolas e pela prefeitura nas festas de Páscoa, São João e Natal. Lita mudava o figurino deles de acordo com as datas. Detalhe é que ela nunca vende suas peças. Sempre empresta para quem precisa.

Lita fez a “Maria Chiquinha” para celebrar o Dia do Idoso. Foto: Paulo Oliveira

Dos 20 bonecos que possui, mantém especial predileção por Maria Chiquinha, confeccionada a pedido da prefeitura de Rafael Jambeiro para o Dia do Idoso.

“Ela é a mais bonita e charmosa” – brinca.

Em seguida, Lita acrescenta que Chiquinha tem pernas feitas com cabos de vassoura e que se ela tivesse recebido alguma verba, por menor que fosse, a boneca ficaria mais real. E admite que no caso dos bonecos, tem preferência mais por um bicho do que por gente.

A artesã tenta consertar cavalo quebrado por um bêbado. Foto: Paulo Oliveira

De todas as peças que a artesã produziu, ela tem apreço por um cavalo em tamanho natural, que costumava ser colocado em área público, montado por um dos bonecos com roupas de vaqueiro. No entanto, um bêbado tropeçou no bicho e o derrubou, quebrando-o. Aos poucos, Lita tenta reconstruí-lo.

LEI DO ARTESANATO NÃO SAI DO PAPEL

O radialista Eddy Santana, autor do livro “Rafael Jambeiro: sua história e seu povo”, diz que a obra de Lita consta do catálogo cultural da Bahia e que em 2005, ela participou da luta para a aprovação da lei municipal de incentivo ao artesanato, que até hoje não foi regulamentada.

Gruta e santuário de pedra construída por Lita dentro de casa. Foto: Paulo Oliveira

A filha da artesã, Marinalva Aragão Serra Santiago, faz coro com Eddy. Segundo ela, que também trabalha com artesanato, este setor não se desenvolve em Rafael Jambeiro porque a prefeitura e os vereadores não dão apoio. A regulamentação da lei seria o primeiro passo:

“Falta um galpão para os artesãos trabalharem e ministrarem cursos, por exemplo. Mas esse povo (os políticos) daqui não têm interesse. Só querem Deus para si” – critica

GRANDE FAMÍLIA

Valerita também é conhecida como Lita de Moisés, nome de seu marido. O casal teve 11 filhos. Três morreram após o parto. A artesã, no entanto, não se abateu criou outras três crianças e passou a ajudar moradores da cidade.

O caso mais emblemático aconteceu quando se deparou com o que acreditava ser um corpo jogado numa vala de esgoto. Ao tocar jovem, percebeu que ele estava bêbado e vivo. Recolheu Janaildo para sua casa e cuidou dele por seis anos.

“Tirei a cachaça dele” – diz.

Para isto, usou compreensão e passou a alimentá-lo direito. O rapaz tinha 18 anos, hoje tem 40 e, segundo Lita, trabalha é pedreiro de confiança e tem muitos clientes.

Casada há 64 anos com Moisés Coni Serra, 89 anos, Valerita se orgulha de nunca ter se separado:

“Quem recebe a cruz tem que dar a conta”- fala, sorrindo.

Valerita e Moisés: 64 anos de casados. Foto: Paulo Oliveira

O casal tem entre 560 e 80 netos e bisnetos – perderam as contas. Além de um trineto.

Os bisavôs de Moisés foram trazidos da Itália para a Bahia por um tio de Lita, Valeriano. Eles se chamavam Molequim Aderbaldo Coni e Alice Coni.

Pilão doado por padre Ápio tem mais de 150 anos. Foto: Paulo Oliveira

Duas peças chamam mais atenção na casa de Lita. Um pilão que teria mais de 150 anos, dado pelo padre Ápio, muito conhecido na região e um santuário em forma de gruta, construído com pedras pela artesã.

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