Cangaço vivo

Cangaço vivo

 A MEMÓRIA SOCIAL DO CANGAÇO NO POVOADO DO MARACUJÁ, SERROLÂNDIA (BA) – 1930

KARINA DE SOUSA SILVA

A todos os idosos e idosas que compartilharam suas preciosas memórias para realização deste trabalho, em especial à Vovó Geraldina, que sempre me contou as histórias do cangaço

Dedé, 91 anos, Dudé, 97, Lizânio, 103, Geraldina e Chico, falecidos. Ela morreu com 95 anos; ele, 103.
RESUMO

Este trabalho tem como tema geral a memória social do cangaço na década de 1930. Seus objetivos são estudar a memória do cangaço no povoado do Maracujá, buscando compreender a sociedade que esses indivíduos estavam inseridos na década de 1930. A metodologia utilizada se baseia nas entrevistas feitas com idosos que conviveram na infância e na adolescência com o fenômeno, bem como os exemplares do jornal O Lidador que circulou na cidade de Jacobina, entre as décadas de 1930 e 1940. Todas as fontes dialogaram com produções historiográficas que puderam embasar as discussões a respeito do fenômeno e de outros aspectos relacionados a ele, como as secas, a cristalização da memória e a representação do cangaço.

INTRODUÇÃO

 Em meio aos relatos ouvidos durante toda a minha vida sobre o cangaço, os crimes cometidos pelos cangaceiros, as atrocidades e a desordem social que esses indivíduos causaram, desenvolvi um fascínio por essas histórias de modo que sempre tive desejo de pesquisar essa temática de forma mais profunda. Por isso, este trabalho inicialmente deu enfoque à memória do fenômeno cangaço na busca de compreender por que nas regiões onde os grupos e subgrupos de cangaceiros passaram se desenvolveu uma imagem do fenômeno exclusivamente voltada para a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Com o desenvolvimento da pesquisa não pude fechar meus olhos em relação às demandas e interrogações sobre a temática. Questões como o papel dos jornais na construção da memória do cangaço e sua ação disseminadora de notícias, bem como a construção de uma memória mística e representativa desse fenômeno na região do Maracujá, no município de Serrolândia (BA), passaram a ser questões relevantes na pesquisa.

Cresci em uma comunidade pequena chamada Maracujá, onde falar sobre o cangaço se tornou algo comum. Nas rodas de conversa dos idosos da comunidade, ouvi dizer que Lampião havia morrido perto do povoado, e muitas outras histórias que despertou em mim um desejo intenso de saber o porquê, mesmo depois de muito tempo, das histórias do cangaço continuarem vivas na memória daqueles idosos de modo que eles contam os fatos como eles tivessem acontecido recentemente. Interessante dizer que o que mais me prendia nessas histórias eram os relatos que mostravam um contexto de mitificação de Lampião e dos cangaceiros que estavam continuamente em volta de uma esfera simbólica muito forte.

A busca por vestígios do passado para melhor compreender essa memória voltada para os fatos e acontecimentos que marcaram a vida cotidiana dos moradores do Maracujá, que ali viviam na década de 1930, partiu do estudo da memória colhido por meio dos relatos orais. Este foi o melhor caminho a ser percorrido, tendo em vista que pude ter uma visão mais ampla das formas de vida dos grupos que habitavam essa região desde os anos 1930. É como diz Verena Alberti[1] “A história oral é hoje um caminho interessante para se conhecer e registrar múltiplas possibilidades que se manifestam e dão sentido a forma de vida e escolha de diferentes grupos sociais, em todas as camadas da sociedade[…]”[2] (…).

Foi através das memórias reveladas por meio dos relatos orais que tive suporte para desenvolver uma discussão a respeito desse fenômeno e suas implicações na vida dos que conviveram de perto com os desajustes sociais causados pelo movimento e especialmente como foram capazes de se ajustarem ou mesmo criarem formas de sobrevivência, estratégias, ajuda mútua, diante das dificuldades decorrentes do efeito de instabilidade e desordem social.

O estudo das representações na memória das pessoas que foram entrevistadas permitiu compreender melhor o universo social em que esses indivíduos estavam inseridos na década de 1930. Esse período foi marcado por muitos acontecimentos que exigiram dos moradores mudanças em seu modo de viver. Além do fenômeno cangaço, essas pessoas tiveram que enfrentar uma forte seca que atingiu todo o sertão nordestino. Seca e cangaço são fenômenos que andam juntos nessa pesquisa, pois na memória dos entrevistados os dois estão sempre associados.

Partindo disto, primeiro tive que compreender a realidade social, cultural do espaço ocupado por esses indivíduos, discutindo esses lugares em uma perspectiva do universo sertanejo. Sendo assim, parti para estudos já elaborados sobre esse espaço ecologicamente e culturalmente ocupado que é o sertão. Essa é a proposta discutida no primeiro capítulo da referida pesquisa, Para tanto, fiz uma análise da discussão sobre sertão com base em obras consagrados como a obra de Durval Muniz de Albuquerque “A Invenção do Nordeste e outras artes”,[3] Janaina Amado em artigo “Região, Sertão, Nação”[4], entre outras, que me ofereceram um panorama das perspectivas desse ambiente chamado Sertão e todas as suas contradições na realidade social de seus moradores.

Dentro da temática sertão também fiz uma análise do que se tem produzido sobre região e sua concepção teórica, uma vez que essa pesquisa está elaborada em uma perspectiva de história regional. O estudo de história regional que embasou essa discussão faz parte de estudos elaborados nas universidades mexicanas e tomei como base o conceito de estudo regional de Luiz Gonzáles um pesquisador ainda pouco conhecido no Brasil.

A nova guinada em relação à problematização da palavra região e seus estudos e conceitos, partem principalmente de estudos em universidades latino-americanas, produzidos por historiadores que estudam os microespaços. Luiz Gonzáles é um dos pioneiros nesta área.

Para se pensar região sob outras perspectivas, Luiz Gonzáles em seu livro “Pueblo en vilo. Microhistoria de San José da Gracia”[5], publicado pela primeira vez em 1968, traz nessa obra, que o consagrou, ricas informações para quem quer trabalhar com história regional. Ele aborda sobre a vida cotidiana da comunidade de San José da Gracia, revelando através das fontes orais e escritas à vida social, política e econômica em que aqueles indivíduos estavam inseridos.

Como os espaços são dinâmicos e abertos a influências nacionais e como isso acaba interferindo nas vivências sociais dos grupos existentes, reforçando a ideia de que a história generalizante e oficializada não dá conta de compreender algumas particularidades existentes em determinadas regiões, que ficam quase sempre marginalizadas pela história que busca sempre fatos imponentes e grandes heróis nacionais. Esse estudo permite romper com as ideias pré-estabelecidas e quase sempre preconceituosas que herdamos dos cânones da grande história, dos grandes heróis.

Reduzindo essa escala de observação para uma visão mais restrita, cheguei ao lugar exato da pesquisa, a comunidade do Maracujá, mas não como ela é hoje, nem seguindo divisões geográficas. Cheguei nesse espaço na década de 1930, período definido anteriormente e fortemente marcado pelas instabilidades sociais ocasionadas pelo fenômeno cangaço. A última parte do capítulo apresenta como eram as comunidades rurais e como viviam os moradores da região do atual Maracujá.

No segundo capítulo, me dediquei a fazer um roteiro do fenômeno cangaço de forma mais reduzida no Nordeste e de configuração mais intensa na Bahia, tomando como base algumas obras que tratam da temática, a exemplo: “Guerreiros do Sol violência e bandidismo no Nordeste do Brasil”[6] de Frederico Pernambucano de Mello e a obra de Oleone Coelho Fontes “Lampião na Bahia”[7], que acabaram dando a base para a elaboração do primeiro momento do segundo capítulo dessa pesquisa. Também utilizei os jornais impressos, especificamente o jornal regional O Lidador[8] como divulgador e criador de uma imagem do cangaço na época, contribuindo para a formação de uma memória muito representativa do fenômeno na região.

Utilizei como fonte o jornal impresso, que ao meu ver, tem um papel de grande interesseiro, ele vive daquilo que o povo quer ouvir, para tanto, o mesmo produz aquilo que lhe garanta a estabilidade e o sucesso no gosto dos leitores, fazendo isso, ele desenvolve uma imagem vez ou outra distorcida da realidade, desenvolvendo assim uma imagem própria daquilo que se quer transmitir. Ele também é competitivo e tem interesses convenientes, mas é levando em consideração essa dinâmica de possibilidades que o jornal oferece de pesquisa e análise da realidade social que o jornal O Lidador fonte indispensável nessa pesquisa, possibilita um olhar sobre a década de 1930 na região de Jacobina.

Dentro da discussão do jornal como meio pelo qual se formava uma imagem ou representação do cangaço, dentre os muitos estudos famosos sobre representação, usei o conceito de que as representações são construções desenvolvidas por um determinado grupo que a constitui como verdadeira. Esse é o conceito desenvolvido por Roger Chartier em sua celebre obra “A história Cultural: entre práticas e representações”.[9]

O terceiro capítulo da pesquisa, se dedica especificamente ao estudo da memória dos idosos do povoado do Maracujá, observando as representações nos discursos, toda a simbologia e misticismo que estão sempre acompanhando cada relato colhido a respeito do que foi e o que é o cangaço na memória dos entrevistados. Fiz uma breve análise sobre a representação da figura de Lampião na memória coletiva e como esse líder do cangaço contribuiu para a formação de uma autoimagem, autopromoção de si mesmo, que circularam por meio dos jornais da época.

Tomei como base a riquíssima obra de Maurice Halbwachs “A memória Coletiva” [10], no qual discute a construção da memória e como a mesma se constitui, porque os indivíduos vivem e se relacionam socialmente. Para Halbwachs, “Cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva.”[11] GONZÁLEZ, Luis González Y. Pueblo en vilo microhistoria de San José de Gracia (México: Ed. Colegio de México, 1968).  Sendo assim, busquei trazer nesse capítulo, questões que partem das falas dos idosos entrevistados, aquilo que é comum que teve fixação na memória coletiva, porque pretendo compreender não o particular, mas o meio coletivo de convivência desse grupo, porque até mesmo as lembranças individuais estão sujeitas a uma rede coletiva, porque ninguém é só, estamos imersos em um meio social.

O grupo social escolhido para dar forma e fonte a essa pesquisa, foram os idosos do povoado do Maracujá com idade de 90 a 111 anos e que na década de 1930, alguns ainda crianças, conviveram com o fenômeno do cangaço na zona rural de Jacobina.  Para estudar a memória dos idosos entrevistados, foi necessário fazer uma análise, partindo do contexto social desses indivíduos que ainda se lembram dos fatos que se relacionam direta ou indiretamente ao tema proposto. Busquei pontos em comum e que divergem nos relatos a respeito do cangaço na região.

Constatei na análise desses dados que as lembranças e os discursos a respeito do cangaço estão cheios de símbolos e representações. E no momento da evocação dessas lembranças, pude perceber que as representações e símbolos ainda vivem na memória dos membros do grupo. Eles não apenas lembram como diz Halbwachs, elas passam a ser ao mesmo tempo reconhecidas e reconstruídas[12]. Sendo assim, os símbolos e as representações continuam a se reproduzir dentro dos relatos do grupo. E foi dessa forma que o cangaço se cristalizou na memória daqueles indivíduos que não hesitam em contar os transtornos vividos naquele tempo de muita instabilidade social.

[1] ALBERTI, Verena. Fontes Orais História dentro da História. Coletânea Fontes Históricas/Carla Bassanezi Pinsky, (Organizadora). – 2. ed. – São Paulo:  Contexto, 2010. (p. 156-202)

[2] Idem, ibidem, P. 164.

[3] ALBUQUERQUE Jr., D. M. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. São Paulo: Cortez, 2001.

[4]AMADO, Janaina. Região, Sertão, Nação. Ponto de Vista. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995, p. 145-151

[5]GONZÁLEZ, Luis González Y. Pueblo en vilo microhistoria de San José de Gracia (México: Ed. Colegio de México, 1968).

[6] MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do Sol: violência e bandidismo no Nordeste do Brasil. – 5. ed. –  São Paulo: A Girafa, 2011.

[7] FONTES, Oleone Coelho. Lampião na Bahia. 6 Ed Vozes. Petrópolis Rio de Janeiro 2008

[8] Jornal semanal que teve circulação na cidade de Jacobina entre os anos de 1933 a 1943.

[9] CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Lisboa: DIFEL, 1990

[10] HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice e Revistados Tribunais, 1990.

[11] Idem, ibidem, p. 51.

[12] Idem, ibidem, p. 34.

CAPÍTULO I
1.1 Sertão e região

O sertão sempre foi tratado como lugar inóspito, separado da vida moderna do litoral, em oposição à vida adiantada da capital. Lugar de convívio insolado, principalmente quando pensamos na vida campestre no início do século XX, a impressão que tenho é que os indivíduos que viviam basicamente do meio rural pareciam estar totalmente distantes do convívio social, das relações de amizades e não tinham acesso às informações do que estava acontecendo no país. É provável que o pensamento tenha se desenvolvido dessa forma, porque sempre que se imagina uma região distante do mar, local de primeiro contato “civilizador”, este lugar está sempre ligado ao atraso, à barbárie, ao isolamento condicional.

O pensamento preconceituoso e deturpado sobre o sertão não é uma coisa recente, isso deriva do processo de colonização, como diz Janaina Amado no texto Região, Sertão, Nação.” [1]

Nesse sentido, “sertão” foi uma categoria construída primeiramente pelos colonizadores portugueses, ao longo do processo de colonização. Uma categoria carregada de sentidos negativos, que absorveu o significado original, conhecido dos lusitanos desde antes de sua chegada ao Brasil – espaços vazios, desconhecidos, longínquos e pouco habitados. [2]

A categoria de sertão desde o início da colonização recebe um sentido inferiorizado pelos nossos colonos, que tinha como sua base para a construção do significado de sertão, o litoral, espaço onde o governo colonial estabeleceu seus negócios desde quando “puseram os pés” nas novas terras. Então, sertão sempre foi o contrário do litoral, que por sua vez estava em constante movimento e progresso.

Desde os relatos sobre o sertão que partiam dos colonos para a corte portuguesa, até as produções historiográficas sobre a temática, pude refletir sobre como esses discursos e pesquisas têm contribuído para reforçar uma visão muito preconceituosa das regiões ditas sertanejas, principalmente quando partimos para as ideias construídas de região no início do século XX. Quanto a isso nos fala Byron de Castro Muniz Teixeira: [3]

A despeito da visão acerca das áreas sertanejas que desde os tempos coloniais identificam-nas como território despovoado, incivilizado e bárbaro, as pesquisas têm revelado a importância desse território para a compreensão da dinâmica da História do Brasil em distintas temporalidades. No caso da Bahia, os estudos apontam para um redimensionamento da dinâmica das áreas sertanejas e refutam a noção de isolamento e de desarticulação dos processos históricos potencializando outras perspectivas de entendimento sobre a história da Bahia. [4]

Como disse Teixeira, os estudos desprovidos das ideias preconceituosas sobre sertão, que ao longo dos tempos prevaleceu, têm revelado a potencialidade e a riqueza histórica desse espaço. Tanto para uma compreensão da História do Brasil como para os estudos dos Estados e suas dinâmicas sociais. Esses estudos têm desvendado fatos que contradizem a ideia de isolamento e barbárie que foi disseminado desde o início da colonização do Brasil e têm mostrado particularidades e dinâmicas próprias das regiões sertanejas.

Durval Muniz de Albuquerque Junior em “A Invenção do Nordeste e outras artes”[5] , também discute a questão dos estudos regionais e como este pode ser uma construção. Em um trecho de sua obra ele diz:

A verdade sobre região é construída a partir dessa batalha entre o visível e o dizível. O que emerge como visibilidade regional não é representada, mas construído com a ajuda do dizível ou contra ele. Falar e ver são formas diversas de dominar esse objeto regional, que podem ser dirigidas ou não no mesmo sentido.[6]

É importante discutir o que se compreende por região, para então entender a tendência de imaginar certos espaços como atrasados, isolados, pouco habitados, e quando habitados, é por “jecas”,[7] “matutos” [8] sentimentais, entregues a seca. Quando não definidos dessa forma, são submetidos à generalização, como se em cada região do Brasil, todos vivessem da mesma forma, tivessem os mesmo costumes e práticas, que as relações sociais se davam do mesmo modo em cada espaço dessas regiões, não é levada em consideração às particularidades, a subjetividade desses espaços e dos indivíduos que o compõe, objetivava-se criar uma identidade nacional única.

Em relação a algumas regiões do interior da Bahia, cuja localização está cada vez mais afastada do litoral, é necessário pensar em outros sentidos para esses lugares que não sejam apenas a de feiura e pobreza. Em sua obra “Fidalgos e Vaqueiros”,[9] Eurico Alves Boaventura pretendeu, em relação ao sertão “[…] esclarecer o engano de alguns estudiosos do nosso passado […]”.[10] Boaventura percorre um caminho em oposição aqueles já citados, a do desenvolvimento e criação de uma identidade a partir do litoral. Para ele foi à cultura pastoril principal responsável para o processo civilizador e econômico do país. Defende o não enaltecimento do litoral, mas um olhar voltado para o interior, o sertão, que segundo ele foi de onde surgiu o incremento da pecuária responsável pela expansão e desenvolvimento não só da Bahia como do Brasil[11]

Esta obra, sem dúvida, oferece um cenário da vida cotidiana nas fazendas do início do século XX em volta das relações do homem com a vida campestre, com a criação do gado fonte de sua subsistência e diversão. É importante notar que esses homens não eram quaisquer homens, eram grandes fazendeiros que tinha prestígios e uma vida abastada, mas que não dispensavam o prazer de conviver com a lida da fazenda. Administravam tudo bem de perto e até realizavam atividades em suas propriedades. Esse homem exaltado por Boaventura é o homem da terra, das fazendas de gado, que saiam pelo sertão a fora desbravando caminhos com sua boiada, formando vilarejos por onde passava, essa sim, era a verdadeira identificação do homem interiorano, o homem sertanejo.

Kleber José Fonseca Simões em sua dissertação de Mestrado “Os homens da Princesa do Sertão: Modernidade e identidade masculina em Feira de Santana (1918-1938)[12] citando a obra, Fidalgos e Vaqueiros de Boaventura ele diz:

Apesar da ausência de exatidão geográfica em sua formulação teórica sobre as regiões que constituíam o mapa da Bahia e do Brasil, Alves redesenha o espaço geográfico a partir de metáforas espacial inovadora que confirmam uma imagem da Bahia na qual o sertão aparece condicionado a atividades pecuarista com seu estilo de vida próprio.[13]

Apesar de rica fonte de informação e discussão a respeito do sertão, importante ressaltar que a obra de Boaventura não foi suficiente para abarcar todas as particularidades e pluralidade que o interior da Bahia tem a fim de desfazer os conceitos desenvolvidos pelos grandes cânones da história do Brasil em relação à visão predominante de atraso e improdutividade das regiões no interior do nosso país. Seu foco principal é na verdade, um estudo sobre a formação das aristocracias rurais, a vida na fazenda, a criação do gado e como isso montou um homem que segundo ele, foi responsável pela configuração de um ser baiano a partir do sertão.[14]

Rafael Rodrigues Vieira Filho, em seu livro “Os negros em Jacobina (Bahia) no século XIX”,[15] também cita o livro de Boaventura, porém, fazendo uma crítica a sua escrita que reforçava a valorização dos grandes latifundiários e seus poderes locais no sertão da Bahia, em oposição aos poderes do litoral e do Recôncavo, Vieira Filho diz:

Alves Boaventura, no texto citado anteriormente, reflete bem toda uma tendência de parte da bibliografia que tem o sertão como objeto […]. Afirmações como a de Boaventura continuam a dominar o cenário das produções sobre os núcleos urbanos do sertão baiano. Os autores estão sempre à procura dos grandes proprietários das sesmarias e suas comitivas, fundando fazendas, ou pequenos núcleos urbanos, com o passar do tempo, transformados em povoados, vilas e cidades.[16]

É importante destacar que não pretendo, entretanto, me colocar entre o dualismo de litoral e sertão, o que pretendo é compreender que diante de todas as discussões sobre relações de poder produzidas acerca da definição de Sertão, pensado sempre como lugar distante do litoral e por isso atrasado. Como disse Janaina Amado “Por isso, desde os primeiros anos da Colônia, acentuando-se com o passar do tempo, “litoral” e “sertão” representaram categorias ao mesmo tempo opostas e complementares”.[17]

Faz-se necessário desenvolver estudos que estejam além dos “velhos conceitos”, que priorizem uma análise cuidadosa desses espaços, visualizando seus agentes sob outras perspectivas, buscando encontrar variantes que dê conta de compreender cada região por meio de seus moradores, nas entrelinhas de suas falas, nas memórias, no seu cotidiano, nas diversas formas de sobrevivência nos períodos de secas e nos momentos de medo vividos por conflitos sociais que se intensificaram no interior da Bahia na década de 1930.

Em um desses conflitos dito de característica sertaneja, pude, por meio das memórias dos que conviveram com esse acontecimento, compreender o mundo social e cultural do espaço ocupados pelos indivíduos entrevistados. A ideia de isolamento no sertão que se projetou por muito tempo, nesse estudo se revela inexistente. Na ajuda mútua, nas feiras e rodas de quebras e tiras de licuri,[18] na ajuda do plantio da roça, pude perceber a constante movimentação que existia entre os indivíduos. As relações eram constantes, o contato existia e revelam outras questões históricas próprias daquele lugar, daquela região que pode não ser vista em uma escala maior de observação, mas na redução dessa escala pude enxergar dinâmicas próprias desses espaços que são dignas de estudos.

O estudo regional revela outras possibilidades de pesquisar desses espaços até então marginalizado pelos estudiosos. Neste capítulo me determino a fazer uma análise do que se compreende de região,[19] tecendo um panorama desse espaço na década de 1930, diminuindo a escala de observação para não cometer o erro de reproduzir conceitos precários sobre as regiões que compõem o interior da Bahia.

Ao buscar outras perspectivas de região, me deparei com os estudos desenvolvidos nas universidades mexicanas e em especial o que feito por Luiz González, considerado o criador da microhistória mexicana, com seu trabalho sobre uma pequena comunidade chamada San José de Gracia, tema do livro “Pueblo em vilo. Microhistoria de San José de Gracia ”[20]. Nesse estudo González usa a história oral como metodologia para compreender aquela pequena comunidade e seus moradores, além dos arquivos das pessoas comuns obtidos nos arquivos municipais e paróquias. Em uma comunidade pequena são os lugares onde se encontra os registros de cada ato e indivíduo. A história regional defendida por Luiz González exige, metodologicamente, um estudo profundo das minúcias da vida cotidiana da comunidade pesquisada.

A aproximação da escala de observação de determinados espaços que antes eram compreendidos como isolados, inférteis, inabitados, ou quando habitados, sempre por pessoas rudes, desinformadas, tem permitido romper com velhos conceitos e compreensões a respeito desses lugares e de seus habitantes.

Os espaços também são representações da dinâmica cotidiana de um povo, de uma comunidade. Geograficamente, um lugar não é único, ele está ligado ao conjunto de comunidades, distritos que compõem um município e que por sua vez está submetido à geografia nacional. Porém, o que torna um espaço singular é a dinâmica social dos indivíduos nesse ambiente, suas memórias, suas relações pessoais. Isso torna uma comunidade importante e digna de estudos históricos. Segundo Luiz González “El transcurso de una comunidade por minúscula que sea propone temas dignos de investigación”.[21]

Em seu estudo sobre a Vila de São José da Graça, González observou que a vida dos habitantes dessa vila não era muito diferente dos habitantes de milhares de outras vilas que existem no território mexicano e por não terem sido palco de uma guerra de independência, nem mesmo ter alguém importante em sua árvore genealógica, São José da Graça, assim como as demais vilas da região central do México, parecem não fazer parte da grande história mexicana. Sobre isso ele diz:

La comunidade Josefina no há producido personalidade de estatura nacional o estatal; nada de figuras sobresalientes en las armas, la politica o las letras. No a dado nungún fruto llamativo ni ha sido sede de nengún hecho importante. Parece ser la insignificancia historica em toda su pureza lo absolutamente indigno de atencion, la nulidade inmaculada: tierras flacas, vida lenta y populación sen brillo. La pequeñez, pero la pequenez típica.[22]

Mas então, por que estudar uma vila como esta que aparentemente não tem nada de interessante para um historiador? O próprio González explica em seu livro o que torna esse lugar, que aos ouvidos acostumados a ouvir grandes histórias de lutas e de heróis não há nada de interessante, dizendo que para ele é na tipicidade dessa vila que está a sua força. A vila de São José da Graça é uma representação das demais regiões que compõem a região central do México e seu subconsciente nacional.

O que estou tentado elaborar até aqui, é uma reviravolta em relação a concepções de espaços dignos de estudos, resquícios ainda de compreensões totalmente dominadora e maniqueísta. Fazer história regional não é uma tarefa fácil, segundo Eric Van Young em “Haciendo história regional: concideracions metódologicas e teóricas”[23], ele diz que “as regiões são como o amor, difícil de descrever, mas as conhecemos quando as vemos”[24]. De fato, essa falta de aprofundamento no conhecimento sobre região muitas vezes leva alguns historiadores a cometerem o erro de reproduzir alguns conceitos ultrapassados e inadequados para região.

É necessário nos colocarmos no tempo e também no espaço dessas sociedades, compreendendo, como o Young diz: “Considerada en cierta forma, la estructura interna de la región constituye también una matriz para la convergencia del espacio físico y social.”[25]. O historiador que pretende fazer história regional, precisa antes de tudo compreender os conceitos e definições de região. Para Young, pensar história regional em um campo teórico ajuda a resolver a tensão entre a generalização e a particularização[26]

Penso que as regiões têm suas particularidades, e não devemos explicá-la simplesmente de forma generalizada ou de forma inferiorizada, como a história oficial tem propagado. Ou a generaliza, sem levar em conta suas particularidades, ou a inferioriza, diminuindo assim a importância dos estudos de alguns fatos que acabam sendo “tachados” como menos importantes ou menores se comparados a assuntos que estão sempre em alta e em pauta nos debates entre os grandes pesquisadores históricos.

É importante repensar a história que se está acostumado a ouvir e reproduzir, essa história está repleta de intencionalidades. É dever do historiador refletir essas intenções, questionar as formas de produções que tem marginalizado ou generalizado certos locais. Fazendo ajustes na lente de observação desses espaços, podem ser encontrados fatos e personagens desconhecidos da história oficial que podem romper com velhos discursos do herói branco, da inferioridade do sertão em relação ao litoral, de uma única história que explica as questões nacionais.

Os estudos regionais podem corrigir como disse Boaventura, alguns erros do passado, dando visibilidade a personagens desconhecidos da história, revelando dinâmicas sociais que colocará em questão certos discursos preconceituosos. Pensando assim, o estudo regional se aproxima do cotidiano, das especificidades, é o estudo da compreensão das dinâmicas da sociedade em nível regional, a fim de revelar outros discursos sobre a existência dos homens em sua condição social.

Ao estudar o povoado do Maracujá, penso que mesmo sendo muito pequena, essa comunidade tem suas histórias. Em suas imediações aconteceram fatos que são dignos de estudo, por que esses acontecimentos se deram na esfera social, revelando o mundo social desses indivíduos, suas redes de relações e compartilhamentos, seu modo de viver em tempos difíceis. Na fala, no olhar, nos gestos dos idosos dessa pequena comunidade, pude ver a história viva de suas lutas, de seus medos, de suas crenças, suas lembranças.

Essa comunidade, por mais que aparente não ter nada, nenhuma importância histórica, encontramos no pequeno povoado do Maracujá – a exemplo de Luiz González na comunidade de San José de Gracia – fatos importantes e dignos de estudos a respeito dos grupos que viviam nessa região na década de 1930 e que passaram por situações de intensas tensões e conflitos, frutos do bandidismo desenvolvido de forma impulsiva no sertão nordestino.

Para visualizar esses habitantes na zona rural de Jacobina, nos anos 1930, é necessário ajustar nosso olhar para essas comunidades entendendo que para eles tudo que estava acontecendo regional e nacionalmente, teve significados e sentidos diferentes de outras partes do vasto território nordestino. Isso está relacionado com o modo de viver dessas comunidades e como as notícias e as histórias sobre o fenômeno do cangaço chegavam até elas.

Deste modo, para compreender a região que trata essa pesquisa, é necessário delimitar esse lugar em um espaço geográfico, isso só é possível quando acontece a aproximação da lente de observação para um espaço mais restrito, mais localizado dentro de um vasto território que compõe o Estado da Bahia. Para tanto faz se necessário conhecer o pequeno povoado do Maracujá.

[1]  AMADO, 1995, op. cit., p. 145-151.

[2] Idem, ibidem, p. 148.

[3] TEIXEIRA, Bayron de Castro Muniz. Nação e Sertão em um Periódico Sertanejo (“A Penna” 1897-1930) Anais Eletrônicos – VI Encontro Estadual de História ANPHU/BA 2013.

[4] Idem, ibidem, p. 02.

[5] ALBUQUERQUE Jr, Durval Muniz de. “Geografia em ruínas”. In: A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2001.

[6] Idem, ibidem, p.46.

[7] Palavra pejorativa para designar a pessoa que vive no campo ou na roça.

[8] Palavra pejorativa para designar a pessoa que vive no campo ou na roça.

[9] BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgo e Vaqueiros. Salvador, UFBA / Centro Editorial e Didático, 1989.

[10] Idem, ibidem, p. 11.

[11] Idem, ibidem, p. 24-25.

[12] SIMÕES, Kleber José Fonseca. Os homens da Princesa do Sertão: modernidade e identidade masculina em Feira de Santana (1918-1928). Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2007.

[13] Idem, ibidem, p. 36.

[14] Idem, ibidem, p. 81-82.

[15] VIEIRA FILHO, Rafael Rodrigues. Os negros em Jacobina (Bahia) no século XIX. São Paulo: Annablume, 2009.

[16] Idem, ibidem, p.39.

[17] AMADO, 1995, op. cit., p.148.

[18] Também conhecido como ouricuri de nome científico Syagrus Coronata. É uma planta sertaneja de onde se aproveita quase tudo. Do coquinho se faz doce, óleos, leite, licores. A folha é comum no sertão. Durante a seca serve de alimento para o gado e é também usado no artesanato. Do tronco se tira uma massa que no tempo de muita seca era usado como alimento. Durante muito tempo especialmente no início do século XX o licuri foi à base da economia de muitas famílias na região de Serrolândia.

[19] Essa região compreende-se atualmente a Bacia do Jacuípe e o Piemonte da Diamantina.

[20]  GONZÁLEZ, Luis González Y. Pueblo en vilo microhistoria de San José de Gracia. México: Ed. Colegio de México, 1968.

[21] Idem, ibidem, p 04.

[22] GONZÀLEZ, 1968, op. cit., p.03

[23] YOUNG, Erick Van. “Haciendo historia regional: Consideraciones metodológicas y teóricas”. Pérez H., Pedro (comp.). Región e historia en México (1700-1850) Instituto Mora/UAM, 1991, pp. 99-122.

[24] Idem, ibidem, p. 01.

[25] Idem, ibidem, p.05.

[26] YOUNG, 1991, op. cit., p.06

1.2 Maracujá? Né a fruta não moço, vou lhe explicar!

Situado a 16 km da sua sede Serrolândia, o povoado do Maracujá que segundo Diomedes Pereira dos Reis “ostenta a posição de ser o maior povoado do município”, tem na memória dos seus moradores resquícios muito fortes do fenômeno cangaço. Essa memória mantida ao longo do tempo, ganhou forma e discursos variados sobre os acontecimentos que se desenrolaram muito próximo onde hoje é o povoado. É comum chegar nesse lugar e ao perguntar a um idoso sobre o cangaço, ouvir diversas histórias sobre esses bandidos que assolaram a região na década de 1930.

A respeito da fundação desse povoado, recorro a Reis novamente. Segundo ele “Foi fundado em 1942 por Vicente Ferreira dos Santos […]. ” [1]. A origem do nome do lugar se limita a versão que havia uma fazenda, onde hoje é o povoado, que cultivava maracujá, típico da região. Embora a fruta tenha um sabor forte e azedo, não podemos dizer o mesmo de seus moradores. Com pouco mais de 1.062 [2] habitantes, o povoado é conhecido por seus idosos estarem sempre dispostos a contar suas histórias e lembranças de um tempo longínquo.

Lugar pacato, cheio de praças, local de lazer, principalmente aos sábados e domingos. São nessas praças que os momentos de socialização são fortalecidos ano após ano. É onde as conversas ganham forma e as retrospectivas do passado vão sendo tecidas, peça por peça, como uma colcha de retalho.

Analisando cada relato, pude compreender melhor a década de 1930. Sobre esse levantamento constatei que esse espaço era povoado por fazendas divididas em pequenos lotes de terras onde viviam grupos familiares que trabalhavam de meeiro [3] ou, como é conhecido popularmente, trabalho de “ameia”, conforme destaca Joseane Bispo Oliveira Marques em seu artigo “As “quebras” e “tiras” de licuri no sertão da Bahia”, [4]

A maior parte da população que viviam na região econômica denominada Piemonte da Diamantina, em especial a partir da década de 1940, era formada por famílias camponesas que se dedicavam a pluriatividade, destacando o extrativismo do licuri em pequenos lotes de terras. Os que não possuíam terras passavam a trabalhar em propriedades, na condição de arrendatário ou parceiro (meeiro). Em regime familiar, os camponeses praticavam a atividade extrativa conhecida como “quebras” e “tiras” de licuri. [5]

Além das quebras e tiras de licuri, citadas por Marques, outras atividades faziam parte da vida econômica dessas famílias desfavorecidas, tais como: a plantação da mamona, milho, feijão e mandioca. Esses produtos agrícolas eram colhidos pelas famílias que viviam nas terras dos fazendeiros. Estes recebiam parte do que foi colhido como paga pela concessão de terra, acordo comum na época, conforme revela Francisco Lomes do Nascimento ao receber em sua casa as tropas volantes

“Eles disse arruma aí um cavalo pra nós, eu digo eu não tenho não, e o requeijão que você tem aí, eu digo não tenho não, arruma aí uma espora pra nós, eu não tenho. Ah! Mas você também não tem nada (disse a tropa). Eu digo ora! Mas o senhor tá vendo eu morando aqui na fazenda do homem, eu vou ter nada? (disse Francisco) aí eles passaram. [sic]” [6]

 Muitas pessoas trabalhavam na sede de fazendas com a função de vaqueiro. Tiravam o leite e cuidavam do gado. Assim, ficavam vivendo por muito tempo até chegar ao ponto de receber de forma “legal” um pedaço de terra para viver o resto de sua vida, sem ficar prestando conta do produto colhido ao seu padrinho. [7]

O contexto social desses indivíduos na década de 1930, fortemente marcado pela presença de subgrupos de cangaceiros, que ora fugiam da polícia, ora aproveitavam as oportunidades para extorquir os moradores da região, dedicados quase que exclusivamente a atividades rurais. Viviam da agricultura com o plantio de mamona, feijão, mandioca, entre outros produtos que eram essências para a sua sobrevivência. A mandioca era um dos principais produtos na época por ser a farinha a base alimentar dos moradores. Desde cedo os filhos estavam na roça trabalhando, ajudando os pais conforme revela dona Maria em entrevista,

“[…] meninota, mas eu conhecia tudo. Trabalhava mais minha mãe. Mãe pegava a empreita, botava roça de mandioca. Era nós na enxadinha. Tudo desse tamaninho (faz sinal som a mão), os cabinhos. Nós não fomos criadas vadiano não. [sic]” [8]

Da pecuária provinha à carne e o leite que era à base do sustento das famílias. Também tinham as galinhas, porcos e cabras para o alimento e para vender no caso de muita necessidade. Cabe destacar que esse espaço estudado, onde hoje está o povoado do Maracujá, era um vasto campo dividido em fazendas de gado. Mulas serviam de transporte desses indivíduos. As propriedades eram um atrativo para os subgrupos de cangaceiros que buscavam dinheiro fácil, tendo em vista que esses fazendeiros guardavam dinheiro em casa e não podiam resistir a um ataque surpresa, conforme nos conta a entrevistada Geraldina Alves da Silva:

“Oxi, Oxi…quanto mais rico, mais eles gostava que era pra roubar o dinheiro. Se se metesse a besta, naquele tempo não tinha banco, não tinha essas coisas. Agora todo mundo que tinha seu dinheiro estava guardando dento de casa, e aí agora se deixasse dá, se eles dissesse: cadê o dinheiro, bote o dinheiro pra fora. Aquela pessoa tinha que sair, pegar o dinheiro e dá na mão, e se não desse matava como matô o finado Mariano e o filho…. porque era fazendeiro nesse tempo, e os fazendeiro tinha gado, tinha bicho para vende, e o dinheiro não tinha banco pra botar o dinheiro, eles guardava o dinheiro dentro de casa. [sic]” [9]

Nesse período, existiam poucos povoados próximos ao pequeno arraial Serrote, que começa a se desenvolver a partir de 1929. Pequenos lugarejos como é o caso de Itapeipu e Tapiranga eram mais desenvolvidos, com feiras semanais e crescente comércio. Essas localidades foram alvos dos ataques desses bandoleiros que buscavam extorquir os donos das casas comerciais existentes. Nesse ambiente mais “urbanizado” também compravam munições para as possíveis e constantes trocas de tiros com as tropas volantes que estavam ao seu encalço.

Segundo a entrevistada Maria, o bando que passou na fazenda de sua mãe seguiu em direção ao povoado do Tanquinho nome popular do povoado de Tapiranga. Segundo ela, o bando não fez “traquinagens, passou apenas de passagem”. [10] Mas isso não era uma atitude comum desses bandoleiros, na maioria das vezes eles causavam transtornos por onde passavam e muitas pessoas tinham de abandonar suas casas para se entocar no mato.

A presença dos cangaceiros na zona rural de Jacobina causou danos e desordem na vida dos moradores da região, pois os hábitos comuns como ir à feira, trabalhar na roça, tiveram que se modificar. Foram muitas as famílias que deixaram sua casa, sua plantação, seu rebanho para se esconder nos matos com medo do que se ouvia dizer das crueldades cometidas por esses homens. Proteção e asilo eram prioridade mesmo que para isso tivessem que deixar para trás tudo o que tinham.

Conhecendo o lugar da pesquisa, busquei compreender o que foi o fenômeno cangaço na visão de alguns autores, como ele chegou e se desenvolveu na Bahia. Questões como essas serão abordadas no próximo capítulo sobre o banditismo e sua representação por meio dos jornais da época. Assim como o papel desses periódicos no desenvolvimento de uma memória do cangaço nas zonas rurais de Jacobina.

O mapa apresentado a seguir mostra exatamente os territórios do atual Piemonte da Diamantina [11] , região marcada pela presença forte de subgrupos de cangaceiros na década de 1930. O mapa revela as cidades que fazem parte desse território segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).

Imagem 1 – Mapa do território do Piemonte da Diamantina

FONTE: cofaspi.blogspot.com

É importante destacar que algumas dessas cidades foram fortemente afetadas pelo cangaço, razão pela qual se reduz ainda mais as lentes de observação para compreender as condições econômicas, políticas e sociais em localidades que fazem parte desses territórios na década de 1930.

Essa configuração territorial que se apresenta por meio do mapa não é a mesma existente nos anos 1930. É necessário ressaltar que algumas dessas cidades nem mesmo existiam nesse período, o que não quer dizer que não houvesse pessoas vivendo nesses espaços, nas fazendas, nas feiras livres, nas tabernas, nas igrejas, etc.

O mapa revela divisão geográfica atualizada desses territórios, mas na década de 1930 não existiam essas divisões, apenas as regiões de dominação dos grandes latifundiários, os famosos coronéis com suas vastas criações de gado. Grande parte desses lugares não se diferenciava na forma de se relacionar em sociedade. Seria um preconceito pensar que esses lugares eram isolados e despovoados.

Grande parte dos territórios próximos à cidade de Jacobina era povoada por fazendas que se estendiam roça adentro, essas propriedades não ficavam muito longe uma das outras. Devido à proximidade desses espaços, as pessoas desenvolviam suas dinâmicas próprias de sociabilidade, dando início a muitas das cidades que se conhece hoje. Conforme pesquisou Diomedes Pereira dos Reis em “Serrote de Ontem, Serrolândia de Hoje” [12] , sobre a história da fundação de cidade.

Já com perspectivas voltada para o futuro e por achar conveniente a ideia de ali se formar um arraial em 1929, o Sr. Jerônimo resolveu convidar algumas pessoas para fazerem roçagem perto do monte, dessa vez com o objetivo de se fundar um comércio, prometendo ainda, que daria um chão de casa a cada um que o ajudasse na brilhante iniciativa (…). Em 1930, iniciaram-se as primeiras feiras livres, realizadas sempre aos domingos. [13]

Era justamente nas feiras livres que se desenvolvia uma dinâmica social única, de ajuda mútua, de passar informações. Era nesse espaço de sociabilidade que muitos dos moradores se informavam e se preparavam para as mazelas do tempo e dos conflitos sociais. Os encontros aos domingos durante as missas também marcavam um momento singular para essa população colocar em dia as novidades das cidades maiores. Os padres muitas vezes faziam o papel de trazer notícias, principalmente de Jacobina, paróquia de boa parte dos lugarejos e vilas dessa região na década de 1930.

As feiras livres como espaço de socialização foram também representadas por um famoso pintor chamado Carybé [14] . A pintura é denominada “O Sertanejo Fala Pouco, mas a Feira Semanal é Motivo de Conversa”, o próprio título já instiga a pensar que muito dos momentos de diversão e de relação social existentes nesses espaços rurais se davam nos dias das feiras que aconteciam em quase todos os lugarejos uma vez por semana. Reforçando a ideia de que não existia isolamento nessas regiões distantes do litoral.

Imagem 2: “O sertanejo fala pouco, mas a feira semanal é motivo de conversa”.

FONTE: Revista de Geografia Agrária [15]

Nas feiras, as pessoas não só conviviam e mantinham suas relações pessoais com também vendiam seus produtos, conforme diz Diomedes Pereira dos Reis sobre as feiras em Serrolândia, no final de 1929. Segundo ele, “armavam-se as barracas aos domingos, entre estas estava a do Sr. Leopoldo Vilas Boas que vendia açúcar, café, aguardente, querosene e outros produtos”[16] , vindos de Jacobina – nessa época já um forte centro comercial como Morro do Chapéu e Senhor do Bomfim, destacadas como cidades mais fortes do interior baiano.

Na região de Serrolândia, na década de 1930, as feiras eram marcadas pessoas que ansiavam compartilhar e receber informações. Era nas feiras semanais que se ficava sabendo dos acontecimentos regionais e das ações dos bandos de cangaceiros na região. Por isso, foram espaços importantes para divulgação de informações em uma época onde nem todos tinham acesso ao jornal impresso.

A seca de 1932 causou muitas mudanças na dinâmica social dos moradores da zona rural de Jacobina. A cidade se encontrava cheia de pessoas buscando melhores condições de vida no garimpo, enquanto outros permaneciam ligados à terra e tentavam contornar o os males impostos pela seca. A falta de chuva não proporcionava muitas possibilidades para aqueles que eram descuidados e muitos tiveram que adiar alguns planos, poupar sua farinha na lata e seu pedaço de carne seca. Segundo Reis, a seca também atingira o pequeno povoado de Serrolândia que nesse período estava começando a se desenvolver. “O crescimento não perdurou pois “a seca de 32” assolou sem piedade o povo […]”. [17]

A estiagem atingiu os pobres e os grandes fazendeiros que representavam o poder político. Porém, é inegável que para aqueles que tinham uma vida menos abastada a seca teve maior impacto sobre suas vidas e seu meio social. A década de 1930 é um período marcado por mudanças na região de Jacobina. O fenômeno cangaço ganha força e grupos e subgrupos de cangaceiros começam a surgir de vários cantos do nosso sertão. Por onde passavam estabeleciam o medo e a desordem. O fenômeno cangaço e a seca teve um papel fundamental nas mudanças de hábitos dos grupos sociais que viviam nas áreas rurais. Esses temas serão abordados nos capítulos que se seguem.

O objetivo desse estudo é entender o ambiente social em que os indivíduos que vivenciaram os anos 1930 estavam inseridos. Mesmo em ambiente rural, esses indivíduos não estavam isolados, mantinham dinâmicas próprias de sobrevivência e de relações sociais que os distanciavam da ideia de ignorância e inocência. Nem a seca, nem os cangaceiros os impediram de criar seus próprios jogos de sobrevivência. As memórias apresentadas nesse trabalho foram colhidas de moradores do Maracujá, palco de tiroteio e morte entre cangaceiros e volantes na década de 1930.

[1] REIS, Diomedes Pereira dos. Serrote de ontem Serrolândia de hoje. 3.ed. atualizada. – Salvador: Press Color, 2010, p. 27.

[2] Dados do IBGE de 2001. Data de acesso 11/8/2014. Não foi possível ter acesso a dados mais recentes.

[3] Nome popular para descrever o trabalho que consiste em ajuda mútua, ou seja, é concedida aquela família um pedaço de terra para morar e trabalhar, na colheita do que foi plantado o morador da terra deve dividir os frutos do seu trabalho com o senhor que o concedeu a terra.

[4] MARQUES, Joseane Bipo Oliveira. As “quebras e “tiras de licuri no sertão da Bahia. Por trás da serra: histórias, narrativas e saberes de uma cidade no interior da Bahia/ Organizadores, Claudia Pereira Vasconcelos [et al]. – Salvador: EDUFBA, 2014.

[5] Idem, ibidem, p. 90.

[6] Francisco Lomes do Nascimento, entrevista concedida no dia 14/9/2014.

[7] Responsável pelo cuidado espiritual, o cuidado d sobrevivência de outro indivíduo que não tem condições de por si só, se manter na vida. Toma a função de um pai.

[8] Maria Joventina Correa, entrevista cedida em 10/5/2014.

[9] Geraldina Alves, entrevista cedida em 10/5/2014.

[10] Maria Joventina Correa, entrevista cedida em 10/5/2014.

[11] Territórios que correspondem aos munícios de: Caem, Capim Grosso, Jacobina, Miguel Calmon, Mirangaba, Ourolândia, Saúde, Serrolândia, Umburanas e Várzea Nova.

[12] REIS, 2010, op. cit.

[13] Idem, ibidem, p. 16-17.

[14] Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, mosaicista, ceramista, entalhador, muralista. Hector Julio Páride Bernabó, vulgo Carybé nasceu em 7 de fevereiro de 1911, na pequena cidade de Lanús, subúrbio de Buenos Aires, o artista viveu em Gênova e Roma (Itália) dos seis meses aos oito anos. Em 1919, veio morar no Brasil onde completou os estudos secundários no Rio de Janeiro e estudou na Escola Nacional de Belas Artes. Durante os quase 50 anos em que viveu na Bahia, Carybé desenvolveu uma profunda relação com a cultura e com os artistas de Salvador. As manifestações culturais locais, como o candomblé, a capoeira e o samba de roda, passaram a marcar a sua obra. Carybé morreu aos 86 anos, no dia 1° de outubro de 1997, em Salvador.

[15] Figura 2 – Pintura de Hector Julio Paride Bernabó (1911 – 1997) retirada de; BRANDÃO, Marcos Sampaio. O Sistema de Produção na Bahia Sertaneja do Século XIX: uma economia de relação não-capitalista. CAMPO-TERRITORIO: atualizada. – Salvador: revista de geografia agrária, v.2, n.4, p.62-81, ago. 2007.

[16] REIS, 2010, op. cit., p.17.

[17] Idem, ibidem, p.18.

CAPÍTULO II
2.1 Cangaço:  fenômeno exclusivo do nordeste do Brasil.

Nessa parte da pesquisa, faço uma análise do fenômeno do cangaço, que ganhou força do final do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Discutirei o cangaço em território baiano, levando em consideração a trajetória desse fenômeno também nas notícias de jornais da década de 1930, mais especificamente O Lidador, semanário que circulou em Jacobina entre as décadas de 1930 e 1940. Objetivo é avaliar o papel desse jornal como refletor de uma ideia do cangaço naquela época.

De antemão, posso dizer que o cangaço, conforme afirma Enaura Quixabeira Rosa e Silva em “Entre o Chapéu Estrelado e o Punhal: O Imaginário do Cangaço em Terras Brasileiras”[1]tem sua história bem anterior à década de 1930 e ocorreu conforme conhecemos hoje, exclusivamente no Nordeste do Brasil.

Aproximadamente, a partir de 1900, o cangaço revelou-se uma epidemia regional de insubmissão que durou quase 40 anos, suscitando a imaginação do povo que criou lendas e histórias populares. Foi um fenômeno exclusivo do sertão do Nordeste do Brasil, do Ceará à Bahia[2]

Sobre esse fenômeno cabe salientar que teve seu apogeu em um período caracterizado pelo abandono e isolamento do Nordeste por parte do poder público brasileiro. Esse fenômeno teve atingiu o ápice com os mandos e desmandos dos coronéis que tinham dentro de suas práticas a cultura de aglomerar capangas, cabras e jagunços[3] à disposição para sua defesa e para manter uma política de relacionamento com o homem brabo do sertão. Muitos coronéis do sertão preferiam manter uma boa relação com os cangaceiros uma vez que a aliança com esses homens podia aumentar sua autoridade. Segundo Frederico Pernambucano Mello em “Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil”[4]

Ao contrário do que teimam em afirmar certos intérpretes, não é possível surpreender uma relação de antagonismo necessário entre cangaceiro e coronel, tendo prosperado – isso sim – uma tradição de simbiose entre essas duas figuras, representada por gestos de constante auxílio recíproco, porque assim lhes apontava a convivência.[5]

Se para alguns coronéis era conivente e aumentava o seu prestígio manter boa relação com o cangaceiro, para o cangaceiro a “amizade” com esses homens poderosos podia lhes garantir estadia, comida e refúgio nas andanças dentro do sertão, especialmente nos muitos momentos de fugas das tropas volantes[6] que viviam no seu encalce. Dessa relação, para Mello[7] nasce a figura do coiteiro[8], figura essa que assim como o cangaço é particular do Nordeste brasileiro.

Ao discutir cangaço, não pude desviar de uma temática que contribuiu para o desenvolvimento desse fenômeno como é conhecido hoje, que são os longos períodos de estiagens. Quanto a esse fator, posso dizer que o nordestino sempre conviveu com as dificuldades de uma vida seca, da alimentação à vestimenta, o nordestino desenvolveu sua relação com o clima. Seu habitat natural o ensinou a ser duro e ágil nas horas do aperto das necessidades.

Essa parte do país sempre foi uma região muito maltratada e esquecida em relação ao Sul e Sudeste. Não foi diferente mesmo quando o nordestino passou por uma das piores estiagens que a memória ainda tem lembrança. Não pude me esquecer de que algumas décadas antes da seca de 1932 que assolou o interior do Nordeste houve severa estiagem entre os anos de 1877 e 1879, que devastou a região, matando muitos nordestinos de fome e doenças. A seca é algo natural nessa região do Brasil, mas o que torna as coisas ainda piores aqui não é a seca, porque como disse anteriormente o nordestino tem desenvolvido meios para lidar com esse fenômeno natural, o isolamento dessa região por parte do poder público é o que mais contribuiu para as devastações causadas pela falta de chuvas.

É difícil especificar o real motivo para o desenvolvimento de tantas revoltas e desordem social no início do século passado no Nordeste do Brasil. Mas entre as causas que tornaram esse espaço do país o ideal para o desenvolvimento de uma cultura rebelde e violenta e catalizador de crescimento do fenômeno cangaço no sertão nordestino está a própria condição climática que caracteriza esses espaços. A respeito disso, Frederico Pernambucano de Mello diz que os períodos de estiagens, a desorganização social e as políticas que favoreciam os fortes grupos locais de coronéis, criaram espaço para o desenvolvimento de movimentos revoltosos que se alastraram por todo o território nordestino, e somando aventureiros e rebeldes aos grupos e subgrupos que passam cada vez mais a compor o cenário sertanejo,

A ocorrência dessa forma de banditismo experimenta seu apogeu em períodos de desorganizações social. Em nossa região os grandes surtos estiveram ligados sempre ao fenômeno de secas e agitações políticas. A correlação entre a primeira pode ser explicada pelo profundo abalo social que os longos períodos de estiagens produziam na sociedade sertaneja golpeando sua incipiente estrutura e reduzindo a mais completa família que, meses antes, gozavam da verde prosperidade dos tempos chuvosos.[9]

Em outra obra chamada “Estrela de Couro: A Estética do Cangaço”[10] , Frederico Pernambucano de Mello aponta o sertão como sendo palco principal para o desenvolvimento do cangaço, não só pelas razões já citadas como a desordem social, também pelo fator natural e vegetal dessas terras.

Fornecendo ao banditismo um nome próprio de sabor regional, um tipo de homem vocacionado à aventura, um meio físico de relevo adequado à ocultação, coberto por malha vegetal não raro impenetrável, e uma cultura francamente receptiva à violência, o sertão não poderia deixar de se converter no palco principal do cangaço[11]

Muitas são as lembranças desse período difícil da vida do sertanejo. Entre os ocorridos que marcam o discurso de alguns idosos entrevistados nessa pesquisa, pude observar marcadamente a temática da seca e a do cangaço, dois acontecimentos que, podemos dizer, caminharam juntos e não se dissociaram.

Para estudiosos do cangaço, como o já citado Frederico Pernambucano de Mello as agitações politicas estão em segundo plano, sendo os longos períodos de estiagens o principal impulsionador assombroso de ocorrência de grupos de extorsões que caracterizam os grupos de cangaceiros em todo o Nordeste.

Rosa e Silva em seu artigo já citado “Entre o chapéu estrelado e o punhal: o imaginário do cangaço em terras brasileiras”,[12] também faz a discussão a respeito do contexto social e geografia favorável do sertão nordestino ao desenvolvimento de uma cultura violenta e revoltosa, atributo do cangaço,

Para compreender o cangaço e os cangaceiros é necessário lançar um olhar crítico sobre a realidade geográfica onde viveram e morreram e o contexto social em que estavam inseridos. É a vida nômade, ao ar livre e, sobretudo, ao sol do sertão que confere ao cangaceiro a peculiaridade do seu biótipo e sua singularidade antropológica e cultural.[13]

A década de 1930 ficou marcada por ser uma década de muitos problemas sociais, principalmente porque em 1932 uma seca devastadora marcou profundamente a vida dos habitantes do interior da Bahia em todos os sentidos. Fome, medo e deslocamento passaram a fazer parte do dia-a-dia dos moradores da região. Para alguns, o fardo da seca era mais pesado que para outros, ainda mais se não estivesse preparado para os tempos difíceis.

Preparados ou não, todos nessas regiões do interior do Estado da Bahia sofreram consequências desse fenômeno natural. Estudar o fenômeno cangaço na região de Jacobina também é estudar os impactos que a seca de 1932 teve, ou seja, compreender o ambiente em que esses homens ditos “fora da lei” encontraram, buscando perceber o contexto social em que as pessoas viviam.

Essa terra – seco lugar onde “quem tem juízo obedece” – é marcada pela desordem social, pelas leis dos mais armados, porque em locais sem leis quem faz as normas são as armas. Aqui desenvolve-se uma figura de indivíduo próprio, rígido, que encontram por um motivo, ou por muitas razões, incentivo para viver como cangaceiro. Para Mello, as opções para ser cangaceiro se deram por três formas básicas: a visão do cangaço como meio de vida; como forma de vingança; e como refúgio.[14]

As razões são diferentes, mas o fato é que o cangaço passou a ser uma forma encontrada por aqueles homens e mulheres de realizarem suas aspirações próprias. Para vingar a morte de um parente assume a figura do “valentão”, do “cabra macho”, aquele tipo de homem que entra na vida do cangaço por vingança ou porque revoltou contra a ordem social e política. Daí em diante, encontrou a razão de sua existência na perambulação do cangaço. Outros ainda encontravam uma forma de juntar uma riqueza, ostentar dentes de ouro e roupas extravagantes, impondo sua autoridade e terror como o famoso Zé Baiano[15] ou até mesmo para refugiar-se de perseguições por algum ato ou crime cometido.

É comum ouvir relatos que motivavam as mulheres a fazerem parte do cangaço, além daquelas que eram pegas a força. Existem casos nos quais elas seguiam o bando por opção própria, pois queriam refugiar-se do universo arcaico e patriarcal ao qual estavam submetidas.

Para entender o universo do cangaço, primeiro tive que compreender que não cabe mais a discussão maniqueísta, aquele velho conceito de herói e bandido, a imagem muito reforçada nos filmes do cangaceiro herói que rouba dos ricos para dar aos pobres. Isso não quer dizer que alguns dos muitos homens que entraram no cangaço ou até mesmo o próprio Virgulino, o famoso Lampião, não tenha de fato entrado no cangaço pela preocupação com aqueles que viviam marginalizados pela sociedade daquele período.

O que é interessante notar, é que o estudo de cangaço mais atual tem percebido dinâmicas próprias desse movimento e das relações que existiam dos homens envolvidos com as outras camadas da sociedade. Esses novos estudos se desviam da ideia de bandido que ganhou o mundo por meio do conceito de Eric Hobsbawm em sua obra “Rebeldes Primitivos”,[16] no qual desenvolveu a definição de bandido social, a ideia do cangaceiro que tinha sede de justiça e de liberdade que tirava dos ricos para dividir com os pobres, o “Robin Hood” dos sertões.

Não se pode negar que dentre todas as figuras que faziam parte do mundo rural nordestino, o cangaceiro é a mais simbólica de todos. Ele se distingue das demais figuras sertanejas. Esses indivíduos eram senhores de suas ações, não se apegavam a nenhuma ordem social. Motivado por uma razão, ou por várias, em um universo seco e cinzento marcado pela dureza da estiagem e pelo isolamento político que sempre deixou o sertão em desvantagem em relação ao litoral do Brasil.

Essa figura ainda é descrita pelos relatos de quem cruzou seu caminho como sendo feias, com caras carrancudas e aparência de ódio, vazios de compaixão. No entanto, estudos mais recentes sobre a vida desses homens e mulheres mostram que na intimidade se alegravam, farreavam, faziam rituais religiosos, costuravam suas vestimentas, obedeciam a hierarquia grupal, mantinham a ordem e respeitavam as regras e a organização do grupo.

Esses cangaceiros não tinham chefe ou comandantes que não fossem de dentro da organização do próprio grupo. A sua aliança com outra figura exterior era somente com interesse em ser beneficiado no caso de alguma necessidade. É desse universo duro, marcado pela seca e sofrendo as dores do abandono político que o fenômeno cangaço vai ganhando forma mais acentuada, vai sendo molhado pelo sangue da vingança, se enraizando nos corações desprovidos de medo e alimentados pelo orgulho e pela violência.

A partir dos finais do século XIX para início do XX, como já referido anteriormente, período este marcado por duas secas devastadoras as de 1877 e a de 1932, o cangaço passa a se proliferar de forma quase que descontrolada, tornando estas datas as mais marcantes desse fenômeno. Os estados nordestinos que foram atingidos por esse fenômeno foram Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe. Contudo, neste trabalho me detenho em analisar o cangaço na Bahia.

[1] SILVA, Enaura Quixabeira Rose e. Entre o chapéu estrelado e o punhal: o imaginário do cangaço em terras brasileiras. Revista Incelências, 2011.

[2] Idem, ibidem, p. 40.

[3] No livro Guerreiros do Sol: Violência e Bandidismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, é feita uma distinção entres essas três figuras que faziam parte do universo cultural do ciclo do gado, nessa obra o autor ainda acrescenta a figura do valentão e do pistoleiro como personagens desse universo cultural. Para Mello (p.69) na zona rural do Nordeste do Brasil não era estranho a designação ao capanga, ao cabra e ao jagunço de “cangaceiros mansos”.

[4] MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do Sol: violência e bandidismo no Nordeste do Brasil. – 5. ed. –  São Paulo: A Girafa, 2011.

[5] Idem, ibidem, p. 87.

[6] Eram soldados do governo que perseguiam, puniam e prendiam os cangaceiros.

[7] MELLO, 2011, op. cit., p.88.

[8] Indivíduo que comumente davam asilo favorecia ou protegia os cangaceiros.

[9] MELLO, 2011 op. cit., p. 80.

[10] MELLO, Frederico Pernambucano. Estrela de Couro: A Estética do Cangaço. – 2 ed. – São Paulo: Escrituras Editora, 2012.

[11] MELLO, 2012, op. cit., p. 45.

[12] SILVA, 2011, op. cit., 39-53

[13] Idem, ibidem, p. 41.

[14] MELLO, 2011, op. cit., p. 89.

[15]  Foi um cangaceiro que integrou o bando de Lampião. Conhecido por sua crueldade. Tinha o costume de marcar com um ferro em brasa as iniciais “JB” no rosto ou no púbis de mulheres de cabelo curto ou por estarem usando vestidos cujo comprimento ele considerava inconveniente, passando a ser conhecido por isso como o “ferrador de gente”. Devido à cor de sua pele, foi apelidado também de “pantera negra dos sertões”.

[16] HOBSBAWM, Eric J. Rebeldes Primitivos. – 1. ed. Editorial Ariel, S.A. Barcelona, 1983.

2.2 O cangaço na Bahia

 O cangaço conforme se tem conhecimento sob a liderança de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, extrapolou os limites territoriais dos Estados do Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, onde esse fenômeno já era mais forte, e chegou à Bahia, segundo Oleone Coelho Fontes, a partir da vinda de Lampião.

Sabe-se que esse fenômeno ocorreu em 21 de agosto de 1928 depois do meio dia […] Antes de Lampião, o cangaceirismo, como é conhecido hoje não existia em território baiano […]. A vinda de Lampião para a Bahia deveria marcar o fim do cangaço, isso ainda nos anos 20. No entanto, mostrando sua capacidade de sobrevivência, extraordinária astúcia, espírito de liderança e competência tática, do lado de cá ele construiu outro império que teria duração de mais de 12 anos […][1]

Antes da chegada de Lampião, a Bahia já convivia com figuras que colocavam medo e desordem por onde passavam em seu processo de perambulação pelos sertões adentro. Oleone Coelho Fontes na obra “Lampião na Bahia”[2] cita alguns destes, como:  Antônio dos Santos, autor de saques e depredações na região de Juazeiro; José Ribeiro da Silva, o famoso “Zé Sereno”, bem como o já relatado Zé Baiano (o “Pantera Negra do Sertão”) ferrador de mulheres.[3] Alguns destes homens terríveis acabaram por encontrar no cangaço e na companhia de Lampião, seu grande líder, a forma de viver que favorecia as atrocidades e os horrores que estavam acostumados a realizar.

Eram homens “brabos” e sem limites, muitos deles por não saber lidar com os conflitos dentro dos grupos preferiam formar seus próprios bandos e seguir realizando roubos e extorsões, sem a supervisão de Lampião. Dessa forma, muitos subgrupos de cangaceiros surgiram no interior da Bahia de maneira desordenada, causando transtornos em lugarejos e pequenas povoações na região de Jacobina.

Lampião e seu bando chegam de mansinho no território baiano. Entretanto, não demorou para que ele e seus comparsas desenvolvessem uma rivalidade com a polícia baiana. Segundo Fontes, o primeiro combate entre o grupo de cangaceiros e a polícia baiana se deu na fazenda Curralinho, do coiteiro[4] Antônio Xavier, em Massacará, no hoje município de Euclides da Cunha. Nesse combate foi morto o sargento José Joaquim de Miranda, conhecido por Bigode de Ouro, e os soldados Juvenal Olavo da Silva e Francisco G. Filho. Essas mortes desenvolveria uma rotina de perseguições, mortes e terror entre polícia baiana e os cangaceiros. Não se pode esquecer que no meio desse conflito temos a população do estado que começou a sofrer ameaças e torturas, tanto do lado dos cruéis cangaceiros como por parte das tropas volantes.[5]

Na Bahia, Lampião montou uma estratégia para poder despistar as tropas volantes que o perseguiam desde os outros estados. Em território baiano, ele desenvolveu a estratégia de dividir seu bando em subgrupos, conforme relata Fontes:

Em território da Bahia, em nova fase, Lampião reestruturaria o bando, dividindo-o em subgrupo, como já o fizera anteriormente. Com esta tática melhor confundiria os que lhe moviam perseguição ou desviava a atenção dos caçadores de bandidos.[6]

Com essa estratégia, o número de cidades e fazendas a atacadas aumentou consideravelmente. Cada subgrupo tinha um líder que estava à frente do bando guiando as andanças sertão adentro. O número de aventureiros que se unia aos bandos aumentou consideravelmente, fazendo com que Lampião, o imponente líder do cangaço, perdesse o controle de seus seguidores. O descontrole também se deve ao fato de que cangaceiros rebeldes, como José Baiano, “volta e meia” abandonavam o grupo e seguiam caminho independente. Fatores como esses fez surgir pequenos bandos de cangaceiros por todo o interior da Bahia, causando danos e transtornos nas comunidades mais remotas do vasto sertão baiano.

Foram muitos os subgrupos que se espalharam pela Bahia, adotando para si as estratégias do “rei do cangaço”. Eles atacavam casas e matavam crianças, velhos e jovens. Essas brutalidades marcaram a vida dos indivíduos que, além de lidar com as problemáticas da seca e uma política pautada nos interesses particulares, tinha que enfrentar um inimigo cruel e desalmado chamado de “cangaceiro”.

Jornais do estado começaram a acompanhar e divulgar crimes e atos de violência feitos por estes grupos. Os periódicos baianos foram fundamentais no processo de divulgação e informação desse fenômeno. Até onde eles aumentavam ou diminuam as informações não cabe a este trabalho julgar. Para isso seriam necessárias outras pesquisas voltadas para essa temática.

O que interessa é analisar o papel de alguns periódicos como meio de divulgação de notícias a respeito dos grupos que passaram a compor o cenário do sertão e como eles influenciaram a representação do fenômeno do cangaço, entre as décadas de 1930 e 1940.

[1] FONTES, Oleone Coelho. Lampião na Bahia. 6 Ed Vozes. Petrópolis: Rio de Janeiro, 2008.

[2] Idem, ibidem, p. 11.

[3] FONTES, 1988, op. cit., p. 11.

[4]  Indivíduo que comumente davam asilo favorecia ou protegia os cangaceiros.

[5] FONTES, 1988, op. cit., p, 45-49.

[6] Idem, ibidem, p. 17.

2.3 As notícias se espalham: os cangaceiros estão na área

O jornal impresso era o meio mais rápido de informar as pessoas sobre a presença de grupos e subgrupos de cangaceiros na região de Jacobina, uma vez que os meios de comunicação na época se limitavam aos pequenos periódicos regionais. A chegada das notícias do banditismo causou grande temor e instabilidade social. Os moradores foram obrigados a mudar sua rotina de trabalho na lavoura, a se esconder no mato, a se “entocar” nas grutas, pois as informações que se tinham desses bandidos e da presença de seus subgrupos eram as mais horrendas possíveis.

Destacarei aqui o papel do jornal como fonte para investigação de representações do cangaço no interior da Bahia, considerando que é uma fonte muito rica de informações e possibilita uma espécie de retorno ao passado. O jornal também é capaz de reproduzir cotidianos e mentalidades de uma determinada época, definida por interesses próprios daquele lugar, daquele período, conforme defende Roger Chartier, a respeito da construção da realidade social em sua obra “A História Cultural – entre práticas e representações”. [1]

As representações do mundo sociais assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza.[2]

Levando em consideração essa afirmação de Chartier, integrado ao objetivo de estudar o jornal O Lidador como produtor de uma representação do cangaço, mostrarei o poder desenvolvido por esse periódico no sentido de desenvolver uma imagem do cangaço que reforçasse o fenômeno como um movimento que causava desordem, medo e instabilidade por onde passava, mesmo sabendo que existiam outras perspectivas e visões sobre o fenômeno, que divergiam da imagem apresentada.

Importante salientar que o jornal é uma fonte com qualquer outra, e merece a devida atenção e cuidado, como relata Maria Juraci Maia Cavalcante em “O Jornal como fonte privilegiada de pesquisa histórica no campo educacional”.[3]

[…] O seu ofício, em especial, em relação à fonte aqui tratada, a empiria da notícia é a matéria-prima de onde parte para tecer as redes possíveis de interpretação. Em outras palavras, antes de tudo, tenderá o pesquisador a ser fiel ao conteúdo encontrado no jornal consultado, não podendo ignorá-lo ou ocultá-lo, ainda que, por alguma razão, seja tentado a fazê-lo.[4]

Um dos jornais que deu ampla divulgação ao cangaço no interior da Bahia foi O Lidador. Como já pontuado anteriormente, os textos desse jornal a respeito do cangaço tiveram um papel no desenvolvimento de uma representação que contribuiu para o desenvolvimento de uma memória do mesmo. Verifiquei em várias edições da década de 1930 notícias a respeito da passagem e circulação de subgrupos de cangaceiros, inclusive, sob a liderança do próprio Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, na zona rural de Jacobina e de Senhor do Bonfim:

“Conforme notícia telegráfica recebida nesta cidade, o bandoleiro (Lampião) a frente de seu grupo acaba de ser visto em Santa Rosa, do município de Bonfim, continuando, entretanto perseguido (deu a entender) pela polícia, nada se sabe sobre o resultado da sua presença na referida localidade.”[5]

O Lidador teve papel fundamental na divulgação dos maus feitos desses homens. Como o jornal era por assinatura, nem todos tinham acesso a essa fonte de informação, mas isso não quer dizer que as pessoas estavam desinformadas, muito pelo contrário. Quem não tinha acesso ficava sabendo das notícias no “boca-a-boca”, conforme nos relata à entrevistada Maria:

“Porque a notícia corria. […] era de boca a boca, as notícias, tal lugar, Lampião tá em tal lugar. Nesse tempo não existia rádio, nem televisão, não existia nada […] [sic]”[6]

É interessante notar que o povo “fofocava” o que o jornal dizia e o jornal dizia o que o povo “fofocava”. Era um círculo de informações que se espalhava como folhas secas de outono no sertão. No ano de 1933, um subgrupo liderado por um cangaceiro chamado Azulão, segundo o jornal O Lidador, assombrou a região de Jacobina, Djalma Dutra e Mairi. Nesse período, jornais impressos circulavam nas cidades com Jacobina, Morro do Chapéu e Senhor do Bonfim, mas nos lugarejos o que prevalecia era a transmissão oral.

As informações surgiam a partir dos lugares por onde esses subgrupos passavam, comprovando que esses indivíduos mantinham relação mútua de ajuda e proteção. O sertanejo da Bahia já estava acostumado a se ajudar, uma vez que sua vida dura exigiu isso.

As pessoas ouviam histórias sempre relacionadas às matanças, às malvadezas e aos mitos, a partir dos lugares por onde estes indivíduos tinham passado. O que o jornal publicava a respeito do cangaceiro era um reflexo do medo da população, da desordem causada por esses bandoleiros. Elas ganhavam espaço nos jornais e nas rodas de conversas sertão adentro.

Compreendi o papel de O Lidador como um catalizador de informações que o povo queria ouvir, tornando público as conversas de roda, os papos das feiras, os relatos de quem dizia ter cruzado o caminho daqueles terríveis homens desalmados.

Nos anos em que as questões do banditismo ficaram mais “arrochadas” nas vilas e comarca de Jacobina, O Lidador dedicou toda a sua primeira página para falar do pavor vivido pelos moradores da região, com a presença de um dos subgrupos de Lampião, chefiado por Azulão e Arvoredo. Foi “dado cabo” desse bando na fazenda Lagão do Limo, uma das muitas que existiam onde hoje é o povoado do Maracujá. A matéria com o tema O Banditismo – Arvoredo e Azulão sicários de Lampião em terras jacobinenses, [5] apresenta o relato de Antônio Carneiro da Silva que segundo o jornal foi salvo milagrosamente da morte, pois estava nas mãos dos piores cangaceiros que a região conheceu.

Nos dias 3, 4 e 5 do corrente, a cidade de Jacobina viveu momentos de pavor e consternação em face das notícias aqui chegadas de Itapeipu, Serrote e outros lugares vizinho perto desta cidade. onde de passagem o grupo de Azulão e Arvoredo, ora desembestado do de Lampião, praticou uma série de crimes com requisitada e habitual barbaridade. [sic][7]

O jornal chegou a entrevistar um dos sobreviventes que ficou cara a cara com este bando, dando espaço para o subdelegado do arraial de Itapeipu, Antônio Carneiro da Silva, relatar seu encontro com esses bandoleiros e como ele sobreviveu.

Até onde esses relatos são de fato reais não é objeto nem intenção desta pesquisa. Cabe aqui analisar apenas como os jornais difundiam as informações, também disseminadas “boca a boca”, ampliando as questões relacionadas à instabilidade social causada pelos cangaceiros e a influência delas na vida da população rural de Jacobina, na década de 1930.

[1] CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Lisboa:DIFEL, 1990

[2] Idem, ibidem, p.17.

[3] CAVALCANTE, Maria Juraci Maia. O Jornal como fonte privilegiada de pesquisa histórica no campo educacional, in: II Congresso Brasileiro de História da Educação, Natal, 2002.

[4] CAVALCANTE, 2002, op. cit., p.07.

[5] Jornal o Lidador ed. 1 de 7 de setembro de 1933 p.04. Matéria: Lampião.

[6] Maria Jovenita Correa, entrevista concedida em 10 de maio de 2014.

[7] O Lidador 6 de outubro de 1933, nº 5. O Bandidismo – Arvoredo e Azulão sicários de Lampião em terras jacobinenses.

CAPÍTULO III
3.1 Recolhendo vestígios do passado: o estudo da memória

Ao lado da história escrita, das datas, das descrições de períodos, há correntes do passado que só desaparecem na aparência. E que podem reviver numa rua, numa sala, em certas pessoas, como ilhas efêmeras de um estilo, de uma maneira de pesar, sentir, falar, que são resquícios de outras épocas. Há maneiras de tratar um doente, de arrumar as camas, de cultivar um jardim, de executar um trabalho de agulha, de prepara um alimento que obedecem fielmente aos ditames de outrora.[1]

Ecléa Bosi (1987)

A memória está sempre viva. Aparentemente ela pode estar morta, pode estar esquecida, mas basta um simples cheiro, ou uma fala, como disse Bosi, para que essa memória ressurja do campo do esquecimento. Por isso, essa parte da pesquisa se dedicará a analisar a memória social do cangaço com os idosos da região do atual povoado de Maracujá, no município de Serrolândia, na Bahia, buscando nos discursos e relatos as representações sociais de cangaço na memória coletiva dos indivíduos entrevistados, analisando as diferentes falas, visões e símbolos desse fenômeno na mentalidade dos idosos que viveram na localidade citada, na década de 1930, período de grande instabilidade social ocasionada pela presença de cangaceiros que haviam se separado do grupo de Lampião e passaram a perambular pela região de Miguel Calmon, Mairi, Jacobina e Senhor do Bonfim.

Os discursos aqui tecidos tomaram forma por meio da evocação do passado. Uma evocação individual, tecida por um indivíduo apenas que não constitui apenas uma lembrança em si mesmo, ou apenas uma perspectiva das coisas. Pelo contrário, as lembranças ganham forma e se constituem de maneiras diferentes. Mesmo vivenciando uma mesma situação, cada ser que ali estava vai ver os fatos por uma perspectiva muito particular. Existem, para Maurice Halbwachs,[2] vários seres em nós e que por sua vez personificam as várias visões que podemos ter de um mesmo fato. Contudo, é importante notar que as lembranças são de um fato social e, por isso, constituem uma memória coletiva e assim permanecem.

Mas, nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós mesmo vimos. É por que em realidade nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá que se distingam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem.[3]

Sendo assim, as lembranças têm relação conosco, com os vários “Eus” que existem dentro de cada ser. As memórias estão ligadas ao que você é ou foi no passado, mas nunca esquecendo que até mesmo as lembranças individuais nascem no interior do grupo social e também podem ter relação com a posição ocupada pelo indivíduo dentro do coletivo que ele está inserido.

Dessa forma, é por meio da aproximação do grupo social que as lembranças vão sendo montadas e ganhando forma. A partir da evocação do passado de um, os demais membros do grupo passam a trazer a memória determinados aspectos daquele acontecimento que de forma isolada talvez não se lembrasse. Quando os indivíduos estão separados do grupo social em que fazem parte, haverá apenas reflexos de um passado distante, algo meio nebuloso, porém juntos, a neblina é dissipada e as lembranças adormecidas ressuscitam.

Não é suficiente reconstruir peça por peça a imagem de um acontecimento do passado para se obter uma lembrança. É necessário que essa reconstrução se opere a partir de dados ou de noções comuns que se encontram tanto no nosso espirito como nos dos outros, porque eles passam incessantemente desse para aquele e reciprocamente, o que só é possível se fizeram e continuarem a fazer parte de uma mesma sociedade.[4]

Não se pode descartar a realidade de que para alguns as lembranças de um mesmo fato estão mais claras do que para outros, pois não se pode negar que existe em nós uma memória individual, composta por visões particulares, às vezes diferenciadas do mesmo fato porque somos seres individuais compostos por sentimentos particulares: medo, a preocupações, alegrias e expectativas que direcionam nossa mente e nossa visão para o que é externo.

Ainda marginalizado, o estudo da memória é indispensável para entender questões do passado que tem permanecido no dia-a-dia daqueles que viveram momentos marcantes. A memória dos idosos da minha comunidade está viva dentro do grupo social e à medida que eles são impulsionados a lembrar, é como se houvesse um “toque de mágica”. E num piscar de olhos os semblantes dessas pessoas mudam. Os idosos passam a ser o centro das atenções, ao contrário do que costuma acontecer na sociedade que o isola e muitas vezes não permite que ele passe o seu conhecimento e as suas experiências de vida.

Em “Memória e Sociedade: lembranças de velhos”, Ecléa Bosi[5] diz o seguinte:

A conversa evocativa com um velho é quase sempre uma experiência profunda: repassada de nostalgia, revolta, resignação pelo desfiguramento das paisagens caras, pela desaparição de entes amados. É semelhante a uma obra de arte. Para quem sabe ouvi-la é desalienadora, pois contrasta a riqueza e a potencialidade do homem-criador de cultura com a mísera figura de consumidor atual.[6]

Trabalhar com lembranças de idosos não é fácil. Não é apenas colher relatos e transformá-los em fonte, é também uma função social. O velho na maioria das vezes está retraído do seu espaço na sociedade, à medida que sua função é reconhecida e valorizada, o narrador vai se envolvendo e conhecendo a realidade daqueles indivíduos que não o enxergam apenas como uma fonte a ser usada grosseiramente com o intuito de alcançar determinado objetivo, mas como um ser, que precisa ser respeitado dentro dos seus limites e dos seus segredos e sabe lidar com a relação estabelecida.

Talvez seja aí a grande dificuldade de se trabalhar com a memória, compreender, como diz Bosi, que o “[…] trabalho entre narrador e ouvinte é um trabalho de alma, olhos e mãos, é por meio disso que o narrador transforma sua matéria, a vida humana”.[7] Não são apenas as falas, todos os gestos, os trejeitos expressam uma relação muito íntima por parte de quem narra. Aquele que ouve precisa estar sensível a observar essas expressões de modo que ele também possa compreender as subjetividades do universo do discurso e das representações por meio dos movimentos do corpo e das expressões sentimentais.

O trabalho com a memória é muito rico e satisfatório, uma vez que compreendemos que é preciso preservá-la para que outros estudos sobre determinados acontecimentos sociais que não foram registrados de outras formas possam ser feitos.

[…] A memória é a faculdade épica por excelência. Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômades, passamos de côncavo de uma para outra mão. A história deve reproduzir-se de geração a geração, gerar muitas outras, cuja fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos.[8]

Foi da conversação com os idosos que vivenciaram a instabilidade causada pelo fenômeno cangaço, na década de 1930, que pude tecer a renda da memória desses moradores. Parti de suas particularidades, de suas crenças, tecendo pedaço por pedaço com o intuito de compreender a realidade social em que essas pessoas estavam envolvidas e como esses ambientes favoreceram a construção de uma memória sobre o cangaço extremamente ligada a figura de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Os discursos a respeito deste movimento estão sempre firmados em repetidos fatos que apresentam uma forma de viver muito peculiar desse grupo de pessoas.

Busquei nessas memórias aquilo que ficou mais forte, que deixou marcas, que teve repercussão no cenário político e social da época. Compreender o universo social, as representações desse mundo a partir da memória dos indivíduos é sem dúvida um trabalho árduo e ao mesmo tempo gratificante, pois as lembranças também são parte de nós, do que somos das nossas relações sociais, daquilo que estabelecemos ao longo de nossa vida.

Partindo desse pressuposto, é importante dar atenção ao que diz Marilene de Sousa Chauí: “Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. Sem o trabalho de reflexão e localização, ela seria uma imagem fugidia”.[9] Refletindo sobre essa frase que contempla a introdução da obra “Memória e Sociedade: lembranças de velhos”, de Ecléa Bosi, constatei que o trabalho com a memória deve ser cuidadoso, uma vez que é nesse campo que as representações vão sendo desenvolvidas e ganhando características próprias de cada indivíduo.

A memória é produtora de representações do mundo social em que aquelas pessoas desejam ou imaginam estar. Elas mostram como os moradores do povoado do Maracujá interiorizaram o fenômeno do cangaço.

O estudo da memória, das representações, bem como da história oral está ligado a conflitos intelectuais provenientes da Nova História Cultural que se baseia em novas concepções historiográficas e faz nascer teorias, metodologias e abordagens dos acontecimentos históricos sob outras perspectivas. O leque de possibilidades aberto a partir disto possibilitou um estudo mais profundo das relações sociais embora estas fontes ainda sejam tratadas por alguns pesquisadores com não muito confiáveis. No caso específico da memória Rodolfo Fiorucci diz o seguinte no artigo “História Oral, Memória, História”[10]:

No bojo dessas inovações, com os depoimentos e os relatos pessoais sendo revalorizados e muitos dos seus defeitos relativizados, aliados ao crescimento da história do tempo presente, entrou em cena outra questão que há algum tempo estava marginalizada no campo da história, qual seja, a problemática da memória. Na verdade, com os novos estudos culturais e a atenção voltada para as “subjetividades outras”, das quais as preocupações com as representações ganharam destaque, não tardaria o ressurgimento da questão da memória.[11]

Para utilizar a memória como fonte para os estudos das representações, o método mais apropriado para colher essas lembranças é a história oral, que tem enfrentado duras críticas no campo acadêmico. Muitos estudiosos alegam a vulnerabilidade desse tipo de fonte e a manipulação desonesta por parte do pesquisador. Não cabe aqui tratar dessa discussão, uma vez que aos poucos a fonte oral está ganhando mais espaço no universo acadêmico, superando a resistência dos mais conservadores. Vale destacar que na presente pesquisa, para compreender por meio da memória o universo social e representativo dos idosos entrevistados, parti para o recolhimento de relatos orais “cara-a-cara”.

Ao coletar os relatos das histórias do cangaço, considerei o que diz Jorge Eduardo Aceves Lozano no artigo “Práticas e estilos de pesquisas na história oral contemporânea”[12]:

Abordar o fenômeno da oralidade é ver-se de frente e aproximar-se bastante de um aspecto central da vida dos seres humano: o processo de comunicação, o desenvolvimento da linguagem, a criação de uma parte muito importante da cultura e da esfera simbólica humana.[13]

Para conhecer a realidade, como disse Lozano, para me “aproximar dos aspectos central da vida desses seres”,[14] recorri a essas narrativas, a essas lembranças e memórias ainda vívidas dos acontecimentos em volta da figura do cangaceiro e do próprio cangaço. A fim de compreender o mundo social desses indivíduos, procurei por meio da oralidade, desenvolver novas fontes para dar visibilidade a histórias não registradas em documentos oficiais. Como disse Lozano, “fazer história oral significa, portanto, produzir conhecimentos históricos, científicos, e não simplesmente fazer um relato ordenado da vida e das experiências dos ‘outros’”.[15]

Para os idosos do Maracujá contar esses relatos é como estar vivendo um filme de ação, principalmente quando se pergunta sobre os cangaceiros que passaram por aquela região. Aí, todos os que são induzidos a lembrar dos acontecimentos dizem, a princípio, que não se lembram de mais nada. Em seguida, disparam relatos sobre o medo e a instabilidade social que esses indivíduos causaram. Situação parecida aconteceu com Oleone Coelho Fontes em sua pesquisa, na região de Senhor do Bonfim e Campo Formoso, para escrever o livro “Lampião na Bahia”. Ele entrevistou pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com esse temido cangaceiro.

Na cidade de Campo Formoso existiu cidadão, figura curiosíssima, por nome Eleutério Alves dos Santos. Foi perseguidor de cangaceiros, conhecia-lhe inúmeros incidentes e versejava cordel invariavelmente utilizando os feitos de Lampião por tema […]. Idoso e sofrendo as consequências de inchaços periódicos nas pernas (que ele atribui aos tempos em que foi presiga), com a saúde abalada, mas que sexagenário Eleutério se tornou arisco, todavia, quando o nome de Lampião era posto em evidencia. E para a surpresa dos que o assistiam, até melhorava. Curava-o a Lampionoterapia![16]

É curioso como esses idosos, mesmo cansados, sofrendo as mazelas do abandono do isolamento social, por parte das gerações mais novas, quando motivados a lembrar desses “casos de cangaço”, assim como disse Fontes, parecem ser curados das suas doenças e aliviados das suas preocupações. Sente-se à vontade para relatar os acontecimentos, ou que viveu, ou que ouviu falar naquele período conturbado da década de 1930.

As histórias sobre o cangaço são contadas não apenas pelos mais velhos da comunidade, pessoas mais novas fazem questão de contar os maus feitos e as crueldades realizadas pelos cangaceiros que por ali passaram segundo o que os seus avós e bisavós lhes tinham contado. As memórias que foram colhidas mostram uma perspectiva da realidade do fenômeno cangaço a partir das lembranças de quem presenciou todos os desajustes sociais que esse movimento causou.

Os entrevistados fizeram questão de contar sobre os fatos ocorridos na fatídica tarde de 15 de outubro de 1933. Data marcada na memória por causa da morte dos integrantes de um dos subgrupos de cangaceiros, liderado por Azulão, considerado um dos mais cruéis que passaram por essas bandas. Azulão, sua mulher Maria, Canjica e Zabelê foram mortos na Lagoa do Limo, próximo do povoado do Maracujá. Esse episódio fez parte de todas as rodas de prosa que tive com os idosos da comunidade. Alguns ainda se arriscam a lembrar dos nomes dos indivíduos e contar com detalhes esse acontecimento.

“Alguns deles encontraram na tal Lagoa do Limo com a força volante. Aí agora foi trocar tiro. Eu lembro bem de três, esses três eu sei, um tratava Azulão, outro Maria Bonita (na verdade é Maria mulher de Azulão) e o outro Zabelê. Esses três mataram e os outro fugiram, escapou e o povo conversa que eles (A força volante) mataram e tiraram as cabeça e deixou os corpos pro urubu comer.[17] “[sic]

Durante esses relatos muitas questões ficaram evidentes, como a mistura de diferentes movimentos. A passagem da Coluna Prestes[18] por Mairi, em 26 de junho de 1926, tem se embaralhado com o cangaço. Dois dos idosos entrevistados confundiram a passagem  da Coluna Prestes por Mairi com a ação dos bandoleiros.

Uma das entrevistadas chegou a dizer que os homens da Coluna Prestes também eram cangaceiros. Percebi que as representações dos fatos estão relacionadas ao medo daquilo que causou instabilidade social. Em ambos os casos, tanto na passagem da Coluna Prestes como no fenômeno cangaço, as vidas dos entrevistados foram bruscamente alteradas pelo medo gerado pelo que se ouvia dizer de seus integrantes.

Ao perguntarmos sobre o cangaço ao entrevistado Lizânio ele nos disse:

“Esse negócio de Lampião e os bandidos, era um bandidismo que havia, os primeiro bloco eu acho que era chamado revoltosos (nome dado a Coluna Prestes) tinha esse bloco dos revoltosos no ano de eu era menino, dormimos no mato também.[19] [sic]”

 Fica evidente o impacto para os entrevistados que tiveram de deixar seu pedacinho de terra, sua casinha, para se “entocar” nos matos como se fossem animais amedrontados. A fim de preservar a vida, em face do que se ouvia falar dos cangaceiros, as pessoas tiveram que passar noites e noites entocadas na caatinga.

Conforme relatos colhidos, os “rebeldes” que marcaram os anos finais da chamada República Velha, em oposição às oligarquias regionais e os movimentos patrióticos também causaram muita instabilidade, medo e mudança na vida daqueles que viviam em regiões mais afastadas das áreas urbanas. Afinal, era no ambiente rural e isolado que os grupos de bandoleiros procuravam e encontravam um campo fácil para extorquir, torturar e matar aqueles que se opusessem as suas vontades.

“O povo tinha medo, eu mesmo dormi no mato muito tempo, que dizer muitas noites. Assombrava assim e saia. O povo dizia tão aí, tão perto. Aí o povo num ficava em casa, não. Ia dormi no mato. Chegava lá, não acendia fogo, não, só um foguinho baixinho.”[20]

Por meio desses relatos podemos compreender que o medo é uma representação muito forte na memória desses idosos. Uns ainda temem em falar desse assunto, como se houvesse possibilidade de que aqueles indivíduos pudessem vir lhes causar algum mal.

Debrucei-me sobre a questão das representações contidas nas memórias dos idosos. Para facilitar o estudo dividi dois acontecimentos marcantes para os entrevistados. Primeiro, a representação de Virgulino Ferreira da Silva, uma vez que seu nome está sempre nos discursos e relatos. A respeito disso, Antônio Fernando de Araújo Sá em “Santos e Demônios: religiosidade popular”[21] diz que “a figura de Lampião permanece, assim, enquanto campo de disputa na memória coletiva. Ficam evidenciados, nas diferentes versões sobre ele presentes na mídia, na tradição oral, na celebração da Missa ou na própria historiografia”.[22]

A segunda questão a ser abordada na pesquisa é o que chamo de memória mística e simbólica do cangaço, ou seja, as histórias e crenças que circulam em volta da figura dos cangaceiros.

[1] BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. – 2. Ed. – São Paulo: T.A. Queiroz: Editora da Universidade de São Paulo, 1987. p. 33.

[2] HALBWACHS, 1990, op. cit.

[3] Idem, ibidem, p. 26.

[4] HALBWACHS, 1990, op. cit., p.34

 [5] BOSI, 1987, op. cit.

[6] Idem, ibidem, p. 41.

[7] BOSI, 1987, op. cit., p. 49.

[8] Idem, ibidem, p. 48.

[9] BOSI, 1987, op. cit., p. 21.

[10] FIORUCCI, Rodolfo. História Oral, Memória, História. Revista História em Reflexão: Vol. 4 n. 8 – UFGD – Dourados jul/dez 2010

[11] Idem, ibidem, p.02.

[12] LOZANO, Eduardo Aceves. Práticas e estilos de pesquisas na história oral contemporânea. In: Usos e abusos da história oral. Janaina Amado e Marieta de Soares de Ferreira, coordenadoras. – 5 ed. – Rio de Janeiro: editora FGV, 2002.

[13] Idem, ibidem, p.15.

[14] LOZANO, 2002, op. cit., p 15.

[15] Idem, ibidem, p.17.

[16] FONTES, 1988, op. cit., p. 12-13.

[17] Entrevista com Ormezinda Sousa Lima, em 5/3/2015.

[18] Tendo como líder Luís Carlos Prestes a Coluna Prestes foi um movimento composta por líderes militares que eram contrários ao governo da República Velha e as elites agrárias. A coluna percorreu 12 estados e mais de 20 mil quilômetros. O movimentou começou em 1925 e durou até 1927.

[19] Entrevista com Lizânio Gonçalves em 29/3/2015.

[20] Entrevista com Lizânio Gonçalves em 29/3/2015.

[21] ARAÚJO SÁ, Antônio Fernando de. Santos e Demônios: Religiosidade popular e a memória do cangaço no sertão do rio São Francisco. Prepared for delivery at the IX Congress of Brazilian Studies Association, Tulane University, New Orleans, Louisiana, USA, March 27-29, 2008.

[22]Idem, ibidem, p. 38.

3.2 A representação da figura de Lampião na memória coletiva

Ao recolher os relatos dos idosos constatei que persiste na memória deles a ideia de sempre associar a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, aos demais integrantes do bando e seus subgrupos. Para os idosos, todo cangaceiro que passou pela região era Lampião. Os relatos colhidos mostram quase sempre a figura do “rei do cangaço” como responsável e líder das desordens ocorridas, ainda que ele não tenha passado pelo território delimitado pela pesquisa. A primeira observação que fiz é que quando se fala na temática do cangaço na memória coletiva dos idosos do povoado do Maracujá é que esse fenômeno se reduz a Virgulino Ferreira da Silva. Se isso acontece, é necessário pensar na representatividade de Lampião, uma vez que ele está presente nos discursos e nas lembranças.

Marcos Edilson de Araújo Clemente em “Lampião aceso: o cangaço na memória coletiva”[1] faz a seguinte observação:

No campo da memória coletiva Lampião tornou-se uma espécie de protótipo dos cangaceiros, eclipsando, digamos assim, os demais cangaceiros do seu tempo. Não obstante, deve-se atentar para o fato de que o cangaço não se resume a Lampião, embora comumente se confunda com ele. [2]

Segundo Clemente, Lampião, ao contrário de outros grandes cangaceiros que existiram no sertão nordestino, como o famoso Antônio Silvino, soube usar muito bem a imagem de forma que se tornou conhecido até nos lugarejos mais longínquos do sertão. Ele construiu uma representação de si que passou a povoar a memória dos que conviveram ou não com o fenômeno do cangaço. Essa representatividade é tão forte que Lampião passou a ser o próprio  cangaço. Não tem como dividir a pessoa do movimento de banditismo. As falas se repetem: “Cangaço de Lampião? Você quer saber sobre ele?”. A maioria dos entrevistados afirma que Lampião que passou pelo povoado. Em diálogo com Maria, ela não tem dúvida que o chefe dos cangaceiros passou pela região: “Foi Lampião, Lampião, Curisco, Dadá […][3][sic]

A presença do líder dos cangaceiros na memória coletiva ainda é muito forte e vívida. Nenhum dos idosos entrevistados sequer cruzaram o caminho dele, mas ao falar de Virgulino Ferreira tremem de medo ainda hoje. O nome Lampião continua sendo motivo de medo no sertão. É sempre associado a coisas ruins. Sempre que alguém comete um crime é comum ouvir o seguinte comentário: “Pra ser ruim assim é parente de Lampião ”.

Em entrevista com Geraldina Alves da Silva, moradora do povoado do Maracujá, percebi o medo e o efeito que a palavra cangaço provoca naqueles que ainda se lembra do período de instabilidade vivenciado na década de 1930.

“Quem é que não tinha medo, porque esses diabos saíram no mundo e ninguém sabia. Quando pegou andando nas fazendas, que eles andava nas fazendas, caçando dinheiro pra roubar, aquele lote de satanás. E era um bando, não era pouco não, era uns bicho, era uns bicho de natureza de cobra. Avimaria não gosto nem de me lembrar, não gosto de lembrar não, senão eu não durmo de noite.[4] [sic]”

 A representação do cangaço e dos cangaceiros na memória coletiva se formou de acordo com as noticias que circulavam sobre as práticas de Lampião e seu bando. O que se divulgava pelos jornais era que por onde ele e seu bando passava ficava um rastro de sangue e medo. O fato é que o jornal teve um papel muito importante na produção de uma imagem do cangaço ancorado na figura de Virgulino Ferreira da Silva.

Antes mesmo do “rei do cangaço” chegar em determinada região, o povo já estava convivendo com o medo. Fontes conta em sua obra “Lampião na Bahia” que só o nome do cangaceiro causava medo e arrepios nas populações sertanejas.[5]  Não era preciso Lampião e seu bando estar presente, o temor surgia só de imaginar que eles poderiam alcançar a comunidade, matando quem resistissem, abusando de mulheres, sangrando crianças na ponta do punhal. Tudo o que se ouvia e o que se divulgava pelo sertão afora é reproduzido ainda hoje nas falas de cada entrevistado.

O chefe dos cangaceiros criou uma imagem por meio da dos jornais, folhetins e fotografias que mostrava seu cotidiano e as mulheres do bando, especialmente Maria Bonita. Ele não queria ficar entocado no mato como animal feroz, queria ser reconhecido, amado ou até mesmo temido. Por onde passava concedia entrevista, conforme fez na cidade de Tucano (BA), onde foi ouvido pelo jornalista, poeta e escritor Demóstenes Martins de Andrade. Parte da entrevista com Demóstenes é citada no livro de Oleone Fontes.

Lampião dirigiu-se para a casa comercial do Sr. Lélis de Andrade, onde imediatamente formou-se uma grande multidão de curiosos, para conhecer o grande homem. Estava na Bahia – foi logo dizendo – para descansar. Sua conduta dependia da polícia baiana. Se não o perseguisse, nenhum mal faria à Bahia […]. Naquela casa comercial, tornando-se alvo da assistência, contou um bocado de façanhas, procurando justificar os seus crimes, com um conceito filosófico verdadeiramente lampiônico. […] Farta cabeleira, esvoaçante lenço vermelho ao pescoço, ingerindo repetidos copos de cerveja, naquele momento e naquela atitude, Lampião dava a impressão de ser um herói caudilhesco.[6] [sic]

 Lampião passava uma boa imagem, cortês, falante e muito inteligente. Botava medo sem abrir a boca. Sua fama fazia o povo tremer. Só de ver seu vestuário, as pessoas sentiam-se acuadas. Na respeitadíssima obra “Estrela de Couro a Estética do Cangaço”, Frederico Pernambucano de Mello aborda a estética, os símbolos e os trajes dos cangaceiros. Ele apresenta uma série de armamentos que eram usados por Lampião e seus comparsas. De punhais de todos os tamanhos a fuzis, esses homens andavam armados “até os dentes”. Quem cruzasse com um deles, feio e carrancudo, certamente sentiria medo.

Fontes conta no livro “Lampião e suas façanhas”[7], com base em estudo feito por Manuel Bezerra e Silva, que Coronel Petro, sempre que ouvia falar no nome do dito cujo, murmurava com azedume: “Que esse bandido não me apareça! Fique por lá e não pense jamais em vir a Curral dos Bois. Se vier, a parada vai ser dura!”.[8] É interessante citar que o encontro entre Lampião e Petro não aconteceu como desejado, o fato é que o “corajoso” homem de tão aflito, inseguro e acovardado que ficou frente à Lampião, acabou caindo em uma rede, desmaiado.

Devido ao medo causado por essas figuras no sertão é comum ouvir histórias quase impossíveis de terem acontecido. Atos de extrema malvadeza que fazem corações amedrontados acelerar só de ouvir falar em Lampião.

O mundo das representações também é um mundo submetido a intencionalidades. Lampião quando se deixava ser fotografado, quando prestava entrevista a algum jornal queria criar uma imagem e tornar-se ainda mais conhecido. Isso possibilitou o desenvolvimento de subgrupos de bandoleiros nos sertões. Muitos homens viam no cangaceiro um exemplo a ser seguido, um herói. Por ora me deterei na memória, na representação do cangaço voltada para a figura de Virgulino Ferreira da Silva e como essa imagem tem se perpetuado.

[1] CLEMENTE, Marcos E. de. Lampiões acesos: o cangaço na memória coletiva. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teiveira, 2009.

[2] Idem, ibidem, p. 02.

[3] Entrevista com Maria Joventina Correa em 10/05/2014.

[4] Entrevista com Geraldina Alves da Silva em 10/05/2014.

[5] FONTES, Oleone 2008, op. cit., p.17.

[6] Idem, ibidem, p.35.

[7] FONTES, 1988, op. cit., p. 20

[8] Idem, ibidem, p. 20.

3.3 As histórias, as crenças e a memória do cangaço

Ao redor de uma fogueira ou ao pé do fogão a lenha é comum se ouvir histórias do cangaço. Certos relatos são contados com características sobrenaturais. Reforçando o imaginário simbólico e místico em torno desses cangaceiros e das pessoas que cruzaram seu caminho. É comum idosos relatarem casos que fogem à lógica do possível. Mas são essas lembranças que marcam a memória dos idosos do povoado do Maracujá e que faziam parte do mundo social deles. Acreditar em forças que vão além da capacidade humana fazia parte da realidade desses indivíduos e dos próprios cangaceiros que, segundo relatos, costumavam fazer rituais de proteção. Essas práticas, segundo suas crenças, os protegiam de emboscadas e de serem mortos.

Dois episódios se tornam repetitivos nos relatos recolhidos nessa pesquisa. Um é a morte de um fazendeiro chamado Mariano e seu filho, assassinados a tiro pelo bando de Azulão. O outro é o tiroteio que aconteceu na Lagoa do Limo, onde Azulão e parte de seu bando foram mortos pela volante de Mairi. Tratam-se de acontecimentos que tiveram grande repercussão na região. As notícias se espalharam no meio do povo. Nas feiras, nas bodegas, em cada canto desse sertão.

As lembranças desses fatos são parecidas em todas as entrevistas, o que significa que fazem parte da memória social do grupo, das relações sociais no tempo em que eram mais próximas, onde mesmo morando léguas de distância uns dos outros, os indivíduos mantinham laços de afeto e amizades que transbordavam os limites territoriais. Essa aproximação do grupo social desenvolve, segundo Bosi, uma visão consagrada dos acontecimentos.

Um dos aspectos mais instigante do tema é o da construção social da memória. Quando um grupo trabalha intensamente em conjunto, há uma tendência de criar esquemas coerente de narração e de interpretação dos fatos, verdadeiros “universo de discurso”, “universos de significados”, que dão ao material de base uma forma histórica própria, uma versão consagrada dos acontecimentos.[1]

Identifiquei lembranças diferenciadas dos fatos no caso dos assassinatos do fazendeiro Mariano e de seu filho. Geraldina Alves da Silva fez questão de relatar esse ocorrido, acrescentando crenças e superstições do imaginário do sertanejo, durante entrevista concedida.

“Quando os diabos atiraram no filho, o pai veio correndo e eles também atiraram no pai. Depois disso o povo chamou um curado que tinha por lá e o homem fez uma cruz com o pai e o filho para atrasar a viagem dos satanás. Depois disso eles não conseguiram sair daquela capueira[2], rodava, rodava e só ficava no mermo lugar. É tanto que um deles falou: a morte daqueles homens nos prejudicô. E muito.[3] [sic]

Em outra entrevista, dessa vez com Francisco Lomes do Nascimento, ele também apresenta um depoimento parecido em relação à questão do imaginário místico que fazia parte do modo de viver daqueles indivíduos.

“É interessante que quando eles matavam um animal pra comer nunca comia a parte de trais do animal. Eles não gostavam não. Porque eles acreditavam que se comesse a parte traseira do animal, eles ia se atrasar na viagem e os macacos[4] iam pegar eles.[5][sic]

Aqui há um ponto a ser analisando nesse estudo da memória. Esses mitos e crenças faziam parte da vida e do cotidiano dos moradores da região e do sertanejo em geral. É comum ouvir histórias de práticas de culto e adoração a cangaceiros, a quem foram atribuídas funções quase que sobre-humanas. Em sua obra “Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil”,[6] Frederico Pernambucano de Mello apresenta a figura do cangaceiro Jararaca como um mito na cidade de Mossoró e arredores – hoje existem livros que se dedicam a esse personagem que virou santo. Eliane Tânia Freitas em artigo intitulado “A vida e a morte de Jararaca: narrações de uma devoção popular no Nordeste brasileiro” [7] destaca:

Jararaca tornou-se, assim, uma personagem lendária nessa saga. […] devido aos efeitos sociais, simbólicos e emocionais desencadeados por sua morte pública, representada como disruptiva e trágica, capaz de evocar a memória temas religiosos caros ao universo cristão, como o sacrifício, a via crucis, o sofrimento purificador, para destacar somente alguns dos mais presentes nas falas dos devotos.[8]

Nos depoimentos colhidos pude observar diversas vezes a expressão de crenças e fé em relação à figura de Lampião. É comum ouvir dizer que ele tinha seus santos e eram suas rezas que o protegiam nas batalhas contra as tropas volantes. No popular e no meio das rodas de conversas, as pessoas comentam que sempre que Virgulino saia para um confronto em alguma cidade ele ia fazer suas orações se encontrava com um padre, ou curandeiro, para que seu corpo fosse fechado, daí nem uma bala o atingia.

Há quem diga nesses relatos populares, que Lampião morreu por que na noite anterior ele havia se deitado com Maria Bonita, coisa que ele não poderia fazer por que abriria seu corpo. Por isso ele foi atingido por bala e morreu. Essas histórias populares em relação aos cangaceiros fazem parte do discurso e da memória das pessoas e ganham versões diversas.

Parece comum ao sertanejo acreditar em coisas sobrenaturais, sobre-humanas, é o lobisomem, o nego d’agua, o romãozinho,[9] a curupira, várias outras figuras míticas desse vasto território chamado sertão que sempre povoaram o imaginário fértil do sertanejo. Não seria diferente em relação aos cangaceiros que, na fala dos entrevistados, são indivíduos com habilidades e forças superiores a um ser humano.

Em “Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil”, Frederico Pernambucano de Mello diz que a imagem do cangaço tem relação com o universo sertanejo:

Do cangaceirismo e do processo de mitificação que parece acompanhá-lo invariavelmente, convém não esquecer o enorme papel do nosso sertão, com todas as contradições e peculiaridade da cultura pastoril, na formação da imagem que temos hoje do fenômeno cangaço.[10]

As histórias e crenças se tornam um escudo protetor que desenvolve uma imagem de cangaço firmada numa ideia voltada para as forças sobrenaturais, para um pensamento mítico e simbólico. Isso não se dá apenas com pessoas que estão fora do cangaço, o próprio cangaceiro carrega em seu corpo patuás, símbolos de proteção e dessa forma que os cangaceiros ficam revestidos em uma simbologia, em superstições.

Esses indivíduos criavam a ideia de que transitavam entre homens carnais e seres com capacidades sobrenaturais. A mitificação da figura dos cangaceiros ainda comove e causa pavor naqueles que vivenciaram o cangaço na década de 1930. Deste modo, pude compreender o mundo sertanejo, o universo do próprio cangaço e como as pessoas visualizavam esse fenômeno. É importante notar que todas as representações passam a fazer parte da cultura popular regional, pois o cangaço faz parte da história e da vida dos moradores do atual Maracujá e das regiões circunvizinhas.

Compreendo que a temática do cangaço não é um assunto defasado e esgotado. Na perspectiva de um estudo da memória, percebi que essa temática ainda pode ser muito explorada uma vez que apresenta variedades de informações que não podem ser desprezadas. Compreender esse fenômeno pela memória possibilita outras perspectivas e novas visões sobre o tema, que perdeu, ao longo dos anos, espaço na área acadêmica.

[1] BOSI, 1987, op. cit., p. 27.

[2] Era como chamavam as pastagens onde o gado ficava solto sem cercas.

[3] Entrevista com Geraldina Alves da Silva em 10/5/2014.

[4] Nome dado as tropas volantes.

[5] Entrevista com Francisco Lomes do Nascimento em 29/3/2015

[6] MELLO, 2011, op. cit.

[7] FREITAS, Eliane Tânia. A vida e a morte de Jararaca: Narrações de uma devoção popular no Nordeste brasileiro. Revista de estudos da religião/ dezembro de 2007/ pp 1-30

[8] Idem, ibidem, p. 01.

[9] Essa crença é bem popular na região de Quixabeira, Maracujá e Serrolândia. O romãozinho, segundo contam os mais velhos são pequenos seres que durante a noite fazem traquinagens nas casas das pessoas que dizem muitas palavras feias.

[10] MELLO, 2011, op. cit., p.96.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo da memória sobre o cangaço ainda é pouco explorado. Dentre as poucas obras identificadas durante a elaboração deste trabalho, encontramos o artigo “Santos e Demônios: religiosidade popular e a memória do cangaço no Sertão do Rio São Francisco”, de Antônio Fernando de Araújo Sá, e o livro “Lampião aceso: O cangaço na memória coletiva”, de Marcos Edilson de Araújo Clemente, que foram fundamentais para o desenvolvimento de uma discussão mais teorizada da memória do cangaço.

Constatei, no decorrer desta pesquisa, que o estudo da memória dos idosos pode mostrar outros caminhos e visões do fenômeno cangaço no interior da Bahia. O cangaço foi um fenômeno que ganhou força no início do século passado. Foi projetado mundialmente com a figura de Lampião. E durante um bom período motivou discussões no campo acadêmico, bem como inspirou livros e filmes.

Esse fenômeno foi analisado sob muitas perspectivas. Foram produzidos estudos polêmicos como o de Eric Hobsbawm e obras consagradas com as de Frederico Pernambucano de Mello, citadas nesse trabalho. No entanto, há poucos trabalhos na perspectiva do estudo da memória. Espero que essa pesquisa incentive futuros estudos com base nesta metodologia. Como disse Araújo Sá em sua obra “Santos e Demônios: religiosidade popular e a memória do cangaço no Sertão do Rio São Francisco”: “É na memória coletiva que se guarda esse tesouro cultural no sertão do Nordeste brasileiro, em que a história aparece intimamente ligada à consciência social […]”.[1]

 [1] ARAÚJO SÁ, 2008, op. cit., p. 01.

FONTES
Orais

Entrevista com Francisco Lomes do Nascimento, em 14/9/2014.

O interlocutor faleceu aos 103 anos, na cidade de Quixabeira/BA. Ele tinha 110 anos à época da entrevista.

Entrevista com Geraldina Alves da Silva, em 10/05/2014.

Tinha 95 anos no momento da entrevista. Residia no povoado do Maracujá, município de Serrolândia/BA. Morreu aos 97 anos. 

Entrevista com Maria Joventina Correa, em 10/5/2014.

A interlocutora reside atualmente no povoado do Maracujá, município de Serrolândia/BA. Tinha 89 anos no momento da entrevista. Hoje está com 91.

Entrevista com Lizânio Gonçalves em 29/03/2015.

O interlocutor reside atualmente, no município de Quixabeira/BA. Tinha 100 anos no momento da entrevista. Hoje tem 103.

Entrevista com Ormezinda Sousa Lima, em 5/03/2015.

A interlocutora reside atualmente no município de Quixabeira/BA e tinha 90 anos no momento da entrevista.

Jornais

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