Travessias do São Francisco

Travessias do São Francisco

O ônibus que faz a linha Salvador-Barra para de repente na estrada, após 13h30 de viagem. Os faróis do veículo da empresa Cidade Sol são a única iluminação. Um pouco adiante, se vê três pessoas, próximas a uma moita. “Por que parou? ”, pergunta um dos quatro passageiros que ainda estão no veículo após 12 paradas em cidades e povoados. A explicação é simples: a estrada acabou. É preciso esperar a balsa para seguir até Barra.

Um perigo para quem vai a uma das principais cidades à margem do rio São Francisco pela primeira vez. O motorista do ônibus Waldiney Braga diz que havia uma placa sinalizadora, mas deve ter sido coberta pelo mato. O trecho da BA-160, entre Xique-Xique e Barra, aliás, está repleto de buracos.

As balsas circulam durante a noite toda, mas com o passar do tempo, o intervalo pode aumentar. Dessa vez, foram 20 minutos. O operador Valdevino explicou que estava esperando uma picape que transporta trabalhadores de uma empresa de energia eólica para fazer a travessia. Normalmente, a travessia de 700 metros é feita em cerca de 10 minutos. Isso só não acontece quando as águas do rio estão baixas, o que pode causar até a suspensão do serviço.

Valdevino explica que tem quatro balsas grandes, pertencentes a três empresas – duas locais e outra do Paraná. São três turnos de trabalho com dois ajudantes e o piloto do reboque que empurra a balsa. Os preços por veículo são: R$ 5 para motos; R$ 15, carro; R$ 55, ônibus e caminhões; R$ 140, caminhões bitrens (até 57 toneladas) e R$ 150, rodotrens (até 74 toneladas). Passageiros não pagam.

Os funcionários das balsas não gostam de falar sobre acidentes, mas eles acontecem. Ano passado, um ônibus cruzou a embarcação e caiu no rio. Só o motorista estava no veículo – todos os passageiros têm que descer antes do embarque – e não se feriu. Durante a travessia também é comum, motocicletas tombarem na embarcação.

Ônibus passou direto pela barca e caiu no rio São Francisco, em 2016. Foto: Blog Braga

A falta de atenção dos funcionários também causa transtornos. Por falta de colocação de calços na parte traseira, o ônibus em que viajava ficou enganchado na embarcação. A operação para soltá-lo levou 40 minutos. Neste dia, chegamos em Barra, às 21h10, ou seja, 14h40 minutos após deixar a capital baiana.

Na volta, não há maiores problemas. O ônibus da Emtram ,que faz linha Goiânia-Irecê, sai da pequena rodoviária de Barra e para menos de dez minutos depois para almoço ao lado do improvisado terminal de balsas. O embarque e a travessia são tranquilos. Apenas uma moto tomba, mas é logo erguida. É possível aproveitar a paisagem e filmar a travessia.

NO ENCONTRO DOS RIOS

Marcelo Leite, 24 anos, trabalha na lancha Vila Brasília, transportando passageiros e motocicletas, do centro de Barra até a outra margem do rio São Francisco, onde estão as localidades de Curralinho, Joá e Itatiaia.

A travessia leva dez minutos e os passageiros pagam R$ 2. O preço por motocicleta é R$ 4. Só as embarcações maiores cruzam o encontro dos rios Grande e São Francisco com carros e picapes.

Há dois anos, Marcelo começou a trabalhar no barco, das 7 às 18 horas. Ele fica com 30% do faturamento diário e entrega o restante para o dono da embarcação. São cerca de 20 viagens por dia. O barqueiro diz que ocorreu um acidente sério na travessia com ele. O máximo que ocorreu foi uma moto tombar.

Antes de pilotar o barco, Marcelo foi ajudante e controlador. Ele diz que na crise atual não pode escolher o que fazer.

 “Pelo menos dá para tirar o leite dos meus dois filhos”, diz.

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