Fragmentos

Fragmentos

Essa janela de uma antiga casa na comunidade quilombola do Agreste, em Tremedal (BA) é por onde Gessi Borges, a Ni, 70 anos, enxerga o mundo que existe lá fora e alimenta sua imaginação.

Casa de dona Ni. Foto: Joabes Casaldáliga

 

“É minha janela do sonho, pequena, mas vejo muita coisa por ela”, explica a matriarca.

Por ali, Dona Ni viu muita gente passar fugindo da seca. E gente voltar porque não deu certo na cidade grande.

A casa de Ni tem entre 120 e 150 anos. Ninguém sabe com exatidão.

A SAGA DE RONILDO

O atual dono do imóvel é Ronildo, 26 anos. Ele foi abandonado no mato com três meses de vida. A mãe, sem condição de criá-lo, foi trabalhar como doméstica em Vitória da Conquista.

Encontrado três dias depois, o bebê foi entregue à dona Ni desnutrido e com problemas de saúde diversos. Lutou para sobreviver por semanas, internado em um hospital.

“A vida de Ronildo foi um milagre de Deus” – diz Ni, emocionada.

Seu menino hoje faz o curso de técnico em agropecuária na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, é militante das causas sociais e em defesa do povo quilombola.

Até hoje, Ronildo não conhece os pais biológicos. Ouviu falar que eles moram na comunidade vizinha, Lagoa Grande.

Essa é uma das muitas histórias de abandono de crianças na comunidade. As principais causas dessas tragédias são a pobreza, o alcoolismo e a falta de trabalho – os homens saem em busca de emprego, ficam muito tempo fora ou não voltam.

Pelo menos 10 mulheres deixaram seus filhos na porta de dona Ni ou local de difícil acesso. Alguns não tiveram a sorte de Ronildo. Os que resistiram, ela criou.

A janela da casa onde a matriarca vive também serve de transição entre a vida e a morte numa comunidade cujo nome significa área pantanosa, lodaçal. Lá, a realidade é dura. Entendê-la pode salvar vidas.

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