Flagelo ou trevas

Flagelo ou trevas

Pouco antes da décima segunda badalada, havia olhares atentos pelas frestas das janelas de madeira nas casas próximas. A rua deserta e iluminação fraca dos postes criavam a atmosfera de tensão. Ou melhor, de medo. Medo de ser surpreendido pela procissão com homens vestidos de capuzes e mortalhas brancas ou enrolados em lençóis, fazendo súplicas. Medo de que se confirmasse a lenda de que o último dos penitentes não pisa no chão. É uma alma que acompanha a procissão.

Medo de abrir a janela e receber uma flor ou uma vela, que mais tarde se transformará em um pedaço de osso humano, como nas histórias que vovó Noêmia contava, na cadeira de balanço na porta de casa. Ao redor, meninos e meninas de olhares atentos, pernas cruzadas, sentados em esteiras de palha, chinelos de dedos acompanhando todos os detalhes.

As minhas férias na sergipana Cedro de São João, com pouco mais de cinco mil habitantes, eram recheadas de cantigas de roda, do pulo certeiro na corda para quem sabia entrar e sair sem se queimar, das disputas de baleado, dos banhos na Salomé, das idas na lagoinha com rodilha de pano e bacia na cabeça, das caminhadas ao açude para buscar água de beber e colocar no porrão de barro, da água fresca da moringa, do cuscuz de milho ralado. Mas a hora das histórias era sagrada. Vinha menino de longe só para ouvir.

Os que passavam e viam a roda, já sabiam das histórias desfiadas depois das seis da tarde, que falavam de reis, rainhas, princesas, de botijas de ouro e moedas de prata. Tudo com toques de mistério. A dos penitentes era a mais esperada e a mais assustadora. História que falava de tradição, de procissão só de homens. A gente sentia medo, mas pedia mais, queria saber dos detalhes. Da vela, da flor e do osso. Da proibição de mulher acompanhar, do respeito que levava a ficar com a janela fechada, olhando pelas frestas. Do que acontecia na hora grande.

Ver a procissão era um desejo que misturava o medo de ser surpreendida por um dos penitentes – ou até pelas almas – e a curiosidade. No entanto, um terceiro componente derrubava os olhares curiosos das crianças que se esforçavam para ficarem acordadas tarde da noite, na Sexta-Feira da Paixão. O tempo. A hora avançava e os penitentes não passavam. O sono vencia. Não consegui ver uma procissão dos Penitentes na infância. Só agora, depois dos 50, consegui acompanhar uma de ponta a ponta, na última Semana Santa. Do cemitério até a igreja.

IDADE MÉDIA

Não se sabe ao certo quando começou a tradição dos penitentes no Cedro. Em outras cidades vizinhas como Capela, Nossa Senhora das Dores, Laranjeiras, a procissão é centenária. Os mais antigos cedrenses falam que conhecem a procissão “desde menino”, que começou “uns tempos atrás”. Um ritual que sempre reuniu homens de idades variadas a partir dos 16, 17 anos. Sites portugueses dizem que o ritual remonta à Idade Média, realizada pelos leprosos que viviam na periferia de Erada, vertente sul da Serra da Estrela. No Cedro, o padre Paulo Cesar apoia a procissão e participa dela.

“É tradição da cidade. Não é um evento católico, mas os penitentes fazem oração, falam sobre sacrifício e pedem misericórdia para almas, rezam. É uma tradição que respeitamos, claro que quem participa também deve respeitar”, diz o religioso.

Padre Paulo se refere ao fato de que em um passado bem próximo alguns penitentes exageravam na bebida, antes do começo do ritual. A procissão que já mobilizou uma centena de homens na cidade, atualmente tem pouco mais de duas dezenas. Este ano, ficou decidido que era preferível ter poucos participantes a ter uma procissão grande com baderneiros.

Passava das 20h quando encontrei José Soares de Oliveira, 46 anos, na porta da igreja de São João Batista, ao término da procissão do Senhor Morto. Ele estava combinando o ponto de encontro para outro cortejo, o dos Penitentes. Morador da Comunidade de São Sebastião, ele é um dos condutores do séquito há mais de uma década e repassava para os outros integrantes, os cânticos impressos em folhas de papel.

“É uma tradição dos antepassados e incentivamos a participação dos jovens, já que os mais idosos vão saindo. Buscamos os que têm ligação com a igreja, mas o convite para participar é aberto a todo” – explica.

Ser uma “filha da terra” contou pontos preciosos para eu conseguir acompanhar a procissão.

O calor de mais de 35 graus da véspera foi substituído na sexta-feira por uma chuva intermitente, de “cada pingo um pote”, como dizia vovó Noêmia. Na hora da procissão do Senhor Morto, no início da noite, a chuva deu uma trégua. E o ar ficou abafado no resto da noite e de madrugada.

O ENCONTRO

As ruas escuras com pouco movimento contrastavam com a reunião na porta do cemitério, 30 minutos antes da hora cheia. Alguns rapazes vinham acompanhados de namoradas e amigos, que permaneceram a uma distância respeitosa. Por cima de bermudas, foram colocadas túnicas brancas e capuzes com buracos para olhos, nariz e boca. Quem não tinha a vestimenta, se enrolou em lençol branco, como se fazia no passado.

O padre, depois de uma maratona de procissões durante toda semana chegou   de batina preta. As tochas foram distribuídas e o cheiro do querosene queimado invadiu as narinas. Um penitente segurou uma cruz de madeira; o outro, a matraca, instrumento de ferro e madeira que produz um som agudo, lúgubre e pontuava os lamentos e as orações entoadas nas encruzilhadas, nas portas das igrejas e na Santa Cruz, colocada à beira da estrada para lembrar alguém morto no local.

Abrir o portão do cemitério São João Batista, passar por sepulturas e se concentrar para iniciar o ritual. Acompanhar isso de perto me trouxe memórias de infância, de saudade dos que partiram.

Diante de um mausoléu, os penitentes se ajoelharam, pediram três Pai Nosso e Ave Maria para as almas do purgatório, as que estão nas ondas do mar e as que estão no mau caminho. Por fim, suplicaram misericórdia ao Senhor Deus, reconhecendo que são pecadores e implorando compaixão. Em fila indiana, passaram pelos túmulos e saíram do cemitério. Começou ali uma caminhada de duas horas e meia e cerca de seis quilômetros de subidas e descidas, de becos e estradas, de ruas de terra batida e de paralelepípedos.

A procissão seguiu pela direita, em direção ao entroncamento rodoviária. A matraca marcou o ritmo da cantoria, dos pedidos de piedade para as almas aflitas, as que nem nasceram, as que deram um respiro e um suspiro final em questão de segundos, as que precisam de salvação, as que se foram de morte morrida ou matada.

A PRIMEIRA PARADA

A primeira das paradas ocorreu um quilômetro e meio adiante, onde foi erguido um marco, uma cruz onde se lê o nome do promotor Valdir de Freitas Dantas, assassinado por pistoleiros em 19 de março de 1988, quando fazia sua corrida matinal. Valdir investigava denúncias de corrupção na prefeitura. A conspiração para matá-lo teria a participação de um ex-prefeito, de um juiz e policiais militares.

Penitentes descalços. Foto: Paulo Oliveira

Novamente de joelhos, os penitentes rezaram um pai nosso e uma ave maria na estrada deserta, com iluminação amarelada das lâmpadas dos postes. No silêncio da madrugada, a prece se propagava. Misericórdia pedida, eles se levantaram e deram meia volta para entrar em uma estrada de terra batida e continuar o chamado dos pecadores: “Onde estás que não respondes? ”

As opções para arrependimento dos pecados levam à penitência ou, para os que rejeitam, ao inferno, dizem os cânticos.

No trajeto, uma pequena tartaruga, dessas que se criam em água, atravessou a estrada na velocidade de camundongo. Passou perto de mim e de um penitente. Um pequeno susto. O primeiro.

A matraca soava alto e os integrantes da procissão seguiram, em passos firmes. O ritmo acelerado sacrificou quem estava acima do peso, os que usavam chinelos de dedos e os poucos que foram descalços. As subidas e descidas de ladeiras requereram esforço, as roupas ficaram empapadas de suor.

Em cada rua ou beco com pouca luz me vinha à cabeça as histórias de criança. Em dois trechos, as luzes fraquejaram, piscaram, apagaram. Acelerei o passo para não ficar para trás. Embalada pelas lendas e contos que ouvi garotinha, não queria ser a última da fila, aquela que não pisava no chão. Quem fechava a procissão era o padre Paulo César, sem correria.

No meio do caminho ocorreu o inverso: a luz de um poste que estava apagada, acendeu. Do nada.

EM TEMPOS DE REDES SOCIAIS

Em alguns pontos, os moradores olhavam a procissão da janela. Outros, em tempos de redes sociais, saíram para fazer fotos e gravar a passagem dos homens de brancos. Ajoelhar, rezar, levantar, caminhar. O rito nas paradas se repetiu por sete vezes.

No serpentear da estrada da Comunidade de São Sebastião, antes conhecida como Carvãozinho, no entorno da lagoa Salomé, outra tartaruguinha atravessou o caminho numa ligeireza de se admirar.

Em duas horas e meia, atravessamos o Alto, Cruzeiro Redondo, Outeirinho, a praça principal, Barroca – onde fica a casa onde passava férias na infância – e o Carvãozinho. Retornamos para a igreja de São João Batista. Cansados, os rapazes terminaram a última oração e se despediram. O padre e o condutor agradeceram a participação e convocaram a todos para a missa que seria realizada mais tarde.

Depois de encostar a matraca na porta da igreja, com a respiração pesada, Rafael Santos, 25 anos, “desabou” na escadaria. Puxou o ar e massageou os braços. Ele não sabe ao certo quanto pesa o instrumento que mistura madeira e ferro. Com certeza “mais de dois quilos”.  Os calos nas mãos eram a prova do esforço para manter o ritmo ao sacolejar a matraca. Católico, ele diz que todo sacrifício recompensa. Há seis anos, Rafael participa da procissão. E sempre se emociona na saída do cemitério.

Terminada a procissão, sigo ao lado de Paulinho, meu parceiro de vida, pelo oitão da igreja. São quase três da manhã.

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Agorinha mesmo, ao recontar essa história me pego feito Chicó, personagem de Ariano Suassuana, em O Auto da Compadecida. Se as luzes se apagaram ou se acenderam no beco escuro; se no silêncio respeitoso se ouvia até o vento; se a tartaruga caminhava rápido feito um rato atravessando a rua, não uma, mas duas vezes em pontos distintos, eu não pego questão com quem duvida da minha “contação” de história. Por que tudo aconteceu? “Não sei, só sei que foi assim”.

 

O RITUAL NO CEMITÉRIO  – Vídeo: Angelina Nunes

 

CÃNTICOS E LADAINHAS – Áudio: Angelina Nunes

 

O DEPOIMENTO DE JOSÉ, O CONDUTOR – Entrevista: Angelina Nunes e Paulo Oliveira

 

GALERIA DE FOTOS – Angelina Nunes e Paulo Oliveira

 

Angelina Nunes Contributor
​Carioca, apaixonada pelo samba, nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital. Jornalista há mais de três décadas, conquistou prêmios como Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, e é mestre em Comunicação pela Uerj. Professora universitária, integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009, e o projeto Mulheres50mais. A família de seu pai é de Cedro de São João, cidade do semiárido sergipano.

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