Os lobisomens do Cedro

Os lobisomens do Cedro

No tempo em que não havia grades nas portas e janelas das casas de Cedro de São João (SE) e os assuntos principais não eram assaltos e arrastões, os moradores ficavam sentados na calçada até tarde, muitas vezes ouvindo contadoras de histórias, como Noêmia Nunes, já falecida, desfiar relatos sobre homens que viravam lobos. As crianças, quietas na esteira estendida nas calçadas, prestavam atenção a tudo.

Noêmia Nunes, contadora de histórias do Cedro. Reprodução

Não havia cidade, distrito ou povoado do sertão sergipano que tivesse seu próprio “homem-lobo” ou “cachorrão”. Normalmente, os suspeitos tinham hábitos estranhos e evitam envolvimento com os vizinhos.

Em Propriá, no entanto, compadre Alfredo era o interlocutor do lobisomem, que nas noites de lua cheia vagava até o Cedro, a oito quilômetros de distância, e voltava pouco antes do sol nascer.

Um dia, o lobo perguntou ao compadre quem era Gigi, um rapaz do Cedro que reuniu amigos para caçá-lo. Ele respondeu que o jovem, cujo nome era Manuel Gibson, era filho de sua amiga e tinha um bom coração.

Ainda irritada, a criatura disse que ia ensinar uma lição ao garoto, pois não gostou de ver ele comandar os jovens que o caçavam lá pelos lados do Carvãozinho (hoje São Sebastião).

Compadre, preocupado, viajou para a cidade vizinha e procurou a mãe de Gigi para avisá-la sobre a intenção do homem-bicho. Disse que só havia um jeito de evitar a vingança. Os jovens deviam deixar o bicho em paz. Daí para frente as caçadas terminaram. Tempos depois, o jovem se alistou na Marinha e mudou-se.

MARCA DE FERRO

Nas calçadas da Barroca, bairro do Cedro, se contam várias outras histórias como a do menino que andava de quatro e vivia arranhando os irmãos nas noites de lua cheia. A mãe, preocupada, procurou pessoas mais velha para entender o que ocorria e se tinha algo para fazer a criança parar com essa estranha mania.

Ouviu como resposta que se não tomasse providências, o guri se transformaria em lobisomem quando crescesse e que só tinha um jeito de evitar isto: era marcar uma cruz com ferro em brasa no corpo do menino. Consta que a mulher seguiu o conselho e evitou para sempre a transformação.

Nem só outros animais para comer a carne e beber sangue fazem parte do enredo das histórias de lobisomem. Em alguns casos, eles dão lições nos humanos.

LIÇÃO NA ADÚLTERA

Certa vez, o lubião do Cedro, que chamaremos pelo nome fictício de Jurandir, observou que uma mulher deixava seus filhos trancados em casa, depois que o marido saía para trabalhar à noite. Ele a seguiu à distância e descobriu que ela ia se encontrar com o amante.

O lobisomem voltou para a casa da mulher e ficou pastoreando as crianças para que nada lhes acontecesse. No entanto, decidiu dar uma lição na adúltera. Dias depois, voltou ao local do encontro dos amantes. No meio da noite, quando a traidora decidiu retornar ao lar, o cachorrão apareceu rosnando e mostrando os dentes.

A mulher correu como nunca, tropeçou numa pedra e caiu, se ralando toda. O lobo uivou e foi embora. Desse dia em diante, nunca mais traiu o marido.

Além das noites de lua cheia, as transformações, segundo creem os cedrenses também ocorrem nas noites da Quaresma, quando é comum ouvir os passos do “homem-bicho” e encontrar pela manhã vomitados com bolas de pelos dos bichos mortos pela criatura. O acesso de vômitos ocorreria após a transformação em gente.

SANGUE E FACÃO

Quando não conseguia se saciar nas matas, o lobisomem do Cedro costumava ir ao matadouro da cidade lamber sangue e comer restos dos bois abatidos. Conhecido pelos funcionários, segundo os contadores de histórias, ele não era incomodado.

Os relatos soavam tão verdadeiros que mesmo os mais corajosos, como o sapateiro Zeca de Ana Rosa, de Propriá, dormiam com facão ao alcance da mão para se defenderem da figura amaldiçoada.

Dona Maria José, filha de dona Noêmia, Cidinha e Luiz S. Britto contaram estes casos para Meus Sertões.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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