Do tempo do salamim

Do tempo do salamim

Francisco Gomes de Nero, o Chiquinho, entrega a idade quando utiliza o salamim (ou celamim) para se referir a quantidade de farinha que sua fazenda produzia. Essa antiga medida, de origem árabe, foi utilizada em Portugal e no Brasil até a segunda metade do século XIX. No Nordeste, avançou pelas primeiras décadas do século XX, pois não havia balanças e a farinha e grãos eram comercializados em compartimentos de madeira, divididos em litros, salamim (14 litros) e saco (quatro salamins). Só os antigos sertanejos sabem disso. Seu Chiquinho, aos 96 anos, é o morador mais velho de Cedro de São João (SE).

Nascido em 6 de janeiro de 1921, em Aquidabã, a 39 quilômetros de distância do Cedro, Chiquinho mantém saúde invejável. Queixa-se apenas de artrose no joelho, que passou a besuntar com óleo de coco depois que cinco médicos diferentes disseram que ele nunca ficaria bom. As dores diminuíram, o inchaço desapareceu. Seus vizinhos também ficam surpresos com sua disposição para montar o cavalo ou a besta que o leva do centro da cidade à sua propriedade, légua e meia (nove quilômetros) dali, em uma hora e dez – mesmo tempo da volta.

Para quem aprendeu a galopar desde criança, nunca andou de bicicleta e não aprendeu a dirigir veículos, não há nenhuma vantagem nisso. Ainda mais depois que os filhos decidiram que ele não poderia mais montar sozinho e o convenceram a visitar a propriedade só dois dias por semana “porque tem muita gente ruim no mundo”. O medo maior é ser atacado por ladrões.

É sentado em uma cadeira confortável à porta de casa, diante da Igreja de São João Batista, que o agricultor e criador de animais conta sua história, ao mesmo tempo que se ouve o ressoar do sermão do padre Paulo e as ladainhas de uma das missas da Semana Santa nos alto-falantes do largo.

SÃO PAULO

Em 1941, Chiquinho foi para São Paulo trabalhar na roça de milho, amendoim e algodão em Quintana, ex-distrito de Marília que só se tornaria município três anos depois. Conhecia bem o ofício, pois desde os sete anos ajudava o pai, Manuel Ferreira de Melo, na plantação, no povoado de Papel de Santa Luzia.

Viajou com a madrinha, que voltava para o interior paulista após visitar a família.

Cinco anos e meio depois, recebeu a carta que mudaria sua vida, enviada por Marinalva dos Santos, noiva de um de seus irmãos. Ela dizia que rompeu o relacionamento e pedia para Francisco trocar correspondência com ela.

Ela já gostava do senhor?

“Eu acho que era” – responde, timidamente.

A FAZENDA

Quando Chiquinho voltou para sua terra, veio certo para casar. Faltou ao trabalho seis dias, tempo para ajeitar tudo e levar a mulher para Quintana, onde casou no civil.

Nos anos seguintes, o casal juntou dinheiro, teve dois filhos e comprou uma propriedade de 200 tarefas (61,04 hectares), na localidade de Caraíba, entre o Cedro e Aquidabã. Deixou a terra dos outros e foi cuidar da sua em 1949.

Todos os anos, plantava mandioca em um terço do terreno. Na época da colheita, passava meses produzindo farinha. Chegou a contratar cinco mulheres para fazer a raspagem, início do processo de fabricação. Tinha um paiol para armazenar 400 quilos do produto, vendido, semanalmente, na feira-livre do Cedro.

Foi com farinha, um “gadinho para ajudar” e com a engorda de 10 a 12 porcos para garantir renda extra no final do ano que Chiquinho criou 12 dos 14 filhos.

“Morreu dois. Nascia parece que para não se criar” – conforma-se.

Daquele tempo, preservou a casa de farinha, mas vendeu os aviamentos (forno, prensa, etc.).

OS TRÊS CASAMENTOS COM MARINALVA

Em Sergipe, a primeira residência do casal Nero foi em Barrelas, localidade próximo ao município de Telha. Depois, mudaram para o imóvel onde seu Chiquinho mora há mais de 35 anos, no Cedro. Adquiriram um terreno para abrigar montarias, um lote em Propriá e foram beneficiados com a implantação de um sistema irrigado para rizicultura, na Várzea, área que engloba três municípios.

Marinalva e Francisco. Foto: Paulo Oliveira

Foi Marinalva que escolheu o nome dos filhos. Preferiu os mais simples, quase todos nomes de santos. Nas contas do fazendeiro, ele casou três vezes com a mesma mulher. É que além da cerimônia original, contabiliza as bodas de ouro e de diamante, quando os votos matrimonias são renovados.

No quarto de Chiquinho, há quadros com fotos de Marinalva, a quem define como trabalhadeira, mãe experiente e boa dona de casa. Acrescenta que todas as filhas puxaram a ela.

Como é a vida depois de ficar viúvo?

“Rapaz, a falta é demais, mas o que eu vou fazer? Eu não quero me casar mais. Tem umas doidas, mas eu não quero mais mulher, não. Eu tenho uma filha aqui em casa que pergunta o que eu quero comer. Eu digo: quero tal almoço. Ela faz. Eu vou procurar uma mulher para me condenar? ”

Desde a morte de Marinalva há oito anos, apareceram três mulheres, com 35 anos em média, se oferecendo para casar, mas foram postas para correr. Chiquinho diz saber bem o que elas procuravam:

“Sempre tenho uns mil réis no bolso. Elas queriam dinheiro. Eu não quero pegar nome de sem-vergonha depois de velho. Minha família é grande e cuida de mim”.

Além de 10 filhos vivos – um teve morte natural e uma das meninas faleceu em um acidente -, Chiquinho tem 36 netos, 40 bisnetos e 14 trinetos, o mais velho com 11 anos

FESTAS E NAMORADAS

Mais moço frequentava festas e tinha muitas namoradas. Ao contar isto, gargalha pela primeira vez.

“Eu era quente, sabe? Mas depois que casei fui bem legal” – fala assim para reforçar que foi um bom companheiro.

Ano passado, depois de muito tempo, concordou que a família fizesse uma festa para comemorar seus 95 anos. Vendeu “umas cabeças de gado” e bancou a comemoração para 300 convidados. Foi necessário alugar mesas e cadeiras em três lojas e pagar pelo uso de uma garagem perto de casa para guardar os alimentos que seriam servidos no evento. O banner com sua foto, está pendurado na sala.

Este ano não quis saber de badalação. Agora, só fará nova festança “se Nosso Senhor consentir que alcance 100 anos”. Enquanto isso, faz planos para matar ”quatro bois ou mais” para os convidados.

As SECAs

Depois de 89 anos trabalhando no campo, Chiquinho diz que hoje não planta mais, “só cria uns bichinhos e zela para o pasto não encapoeirar”.  Ele paga para um diarista realizar serviços, como tapar buracos nas cercas. Nas vezes que vai para a propriedade, é acompanhado por um dos netos e segue numa besta macia, amansada no último verão. Também tem um cavalo dócil de reserva.

Em toda sua vida lembra-se de três grandes secas. A de 1933, a de 1970 e a de 2016/2017, que praticamente secou a Lagoa da Salomé, uma das maiores do estado. Só este mês (abril), após o padre Paulo rezar missa às margens da Salomé é que caiu água por três dias seguidos, recuperando boa parte da lagoa.

Apesar de considerar a última seca como a pior de todos os tempos, o criador de animais disse que não teve prejuízo:

“Não perdi nada porque meu terreno tem muito riacho. Chora água no riacho todo. Também vendi bois gordos a R$ 140 a arroba – hoje o preço está a R$ 150”.

EXPERIÊNCIA DE VIDA

Seu Chiquinho gosta de gabar-se de sua memória privilegiada. Cita o nome dos filhos, diz reconhecer todos os seus animais pela cor e saber onde encontrar qualquer objeto, mesmo tendo guardado ele há meses

Sobre sua boa saúde, fala que quem tem a receita para isto é Nosso Senhor, mas admite que dormir e acordar cedo – ele deita às 21h e acorda às 3h – não beber, não fumar, não jogar e não andar atrás de povo à toa pode colaborar.

Sobre política, conversa pouco, mas é crítico. Considera que o Cedro não melhora por causa dos prefeitos:

“Conheço eles de longe, mas não vou atrás deles. Agora não voto mais para nenhum. Já encerrei a carreira”.

Em sua opinião diz que a única coisa que progrediu foi o “estudo do povo”:

“Quem quer estudar tem facilidade para tudo. Dos meus filhos, não estudou quem não quis porque eu não obrigava”.

Um vende verdura em Propriá e os demais trabalham em plantações na Várzea ou criando animais.

Volta a falar da família. Lembra do irmão que era militar e morreu doente, no Rio de Janeiro. Fala que aprendeu a ter um “gadinho” com o pai, que toda vida teve de dois a quatro bois e vacas para garantir leite e comida. Acrescenta que a mãe teve 21 filhos, mas apenas cinco se criaram.

Levanta-se serelepe da cadeira e mostra a casa e objetos, relata fatos. Está contente porque os visitantes estão ouvindo suas histórias. Até as tristes.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “Do tempo do salamim”

  1. HEULER JOSE PRETTIDisse…
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    Um curtas linhas “percorri” toda uma vida de um ‘grande homem’ – Seu Chiquinho. Paulo Oliveira é Mestre nos contos e resume uma bela trilha do CABRA MACHO, exemplo de trabalhador e de linha certa. Apaixonante, esta lenda viva. Seu percurso é de fácil leitura, além de super agradável, a gente vive seus momentos, ainda que resumidos ao escencial, mas suficientes pra saborear a leitura, em minutos. Gênio, digo eu. Merecedor de troféus.

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Obrigado

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