O homem que colore o sertão

O homem que colore o sertão

O sertão de Eduardo Lima tem muitas cores. Seus quadros têm como tema o cangaço, as festas populares, as mulheres nordestinas e a seca. É um sertão sem fronteiras, que começou a ser desbravado em Capim Grosso, cidade a 276 quilômetros de Salvador (BA).

O menino sertanejo fez os primeiros rabiscos na escola quando tinha por volta de oito anos. O pai Antônio, cearense, trabalhava em uma olaria e levava Eduardo, um de seus cinco filhos, o acompanhava muitas vezes. Barro e tinta se misturaram nas veias artísticas do garoto, que ainda não imaginava ser artista plástico.

Antes de sua sina de concretizar, foi frentista de um posto de gasolina onde ônibus clandestinos com retirantes faziam parada noturna. Nas horas vagas, antes de descobrir os pincéis e a tinta óleo, usava lápis e nanquim.

A pintura de tela surgiu tarde, por volta de seus 20 anos, com uma dificuldade adicional. Era praticamente impossível comprar o material que necessitava em sua cidade. Precisava se deslocar para Feira de Santana, num trajeto que levava, no mínimo, quatro horas, ida e volta.

A princípio, não tinha foco. Fazia o que o que as pessoas encomendavam: paisagens, cavalos, qualquer coisa. Pedidos que com o tempo passaram a incomodá-lo.

“Não tinha verdade no que eu fazia. Resolvi não trabalhar mais sob encomenda e me dedicar por conta própria ao cotidiano sertanejo” – conta.

As pinturas mais realistas também não lhe agradaram. Outros artistas desenham as mesmas coisas. de forma parecida. Precisava de um estilo. Começou com um personagem inspirado nele mesmo, na família e nos retirantes.

Ainda era frentista boa parte do tempo.

O PRIMEIRO SORRISO DA SORTE

O sogro tinha uma pequena loja na cidade. Para enfeitar as paredes do estabelecimento, Eduardo pintou alguns quadros. Mesmo sem conhecimento sobre telas e sem traquejo, despertou o interesse de algumas pessoas até que um cliente comprou um dos quadros por uma quantia que ele não sabe precisar, mas imagina variar entre R$ 100 e R$ 150.

Hoje, aos 39 anos, lembra-se que se lançou como artista plástico aos 19, largando pela primeira vez a função de frentista. Começou a realizar o sonho de suas obras serem identificadas por seu estilo.

A fotografia da família Silva. Reprodução

 

“As figuras de meus personagens têm um pouco de minhas características. Misturam meus olhos e a expressão de minha esposa, que é cearense. É como se fossem meus filhos” – diz.

A mudança para Barreiras, no oeste baiano, foi consequência de uma proposta para divulgar seu trabalho em Brasília. Na capital federal não teve o sucesso que esperava.

Eduardo Lima ficou frustrado. Largou de mão a pintura e decidiu voltar a trabalhar em posto de gasolina, onde sua arte fez um “pit-stop” de dois anos.

AS DUAS FACES DA INTERNET

Os primeiros anos em Barreiras foram difíceis. Embora pintasse ocasionalmente, não fazia fé na internet para divulgar suas obras. Um dia soube que alguém estava vendendo quadros muito parecidos com os que ele fazia.

“Era um negócio estranho. Praticamente um plágio. O camarada estava fazendo a maior festa na internet. Ele viu meus trabalhos em publicações especializadas e catálogos de exposições. Aproveitava que o público não me conhecia e que eu estava inativo para se beneficiar” – recorda.

A reação foi criar uma conta na rede social. O resultado foi melhor do que ele esperava. Neutralizou a “pirataria” e atraiu clientes e marchands. Atualmente trabalha com galerias em Salvador (BA). Blumenau (SC), Guarapari (ES) e Roma (Itália). Três anos após os primeiros contatos, contabiliza participação em 50 exposições no Brasil e no exterior e centenas de obras vendidas.

Caseiro e reservado, Eduardo Lima produz dez telas mensais, negociadas em lotes com as galerias. Ele não divulga preços, pois os revendedores têm cotações diferentes.

Para definir os temas de cada mês, o artista utiliza uma metodologia que criou ainda em Capim Grosso: visitar povoados, feira-livres e cidades da região para se inspirar. Nas viagens, fotografa, rascunha, observa as pessoas.

Os filhos do pintor, Eduardo e Vinícius, de 18 e 15 anos, também “entraram na dança”. Servem de modelos para dobras anatômicas.

AS DIFERENTES FASES

Autodidata, Eduardo Lima aprendeu pintura nos livros, em consultas na internet e na troca de informações com colegas. Alguns de seus temas, viraram séries, como Lampião e Maria Bonita, Bumba Meu Boi, Mulheres Sertanejas, Festejos Juninos e a Seca.

As cores exuberantes visam tirar a ideia pré-concebida de que o sertão é miserável e mostrar a riqueza da região:

“Noutro dia, pintei um quadro florido e verde. Aí pensei, choveu no sertão, mas ninguém veio fotografar as flores e frutas que estão brotando. Mas quando passa três, quatro meses sem chover, a coisa muda. Ficam sempre divulgando a imagem negativa. O sertão é rico. Na minha série sobre colheitas, por exemplo, retrato a fartura nordestina” – diz.

Fã de Aldemir Martins, Portinari e Tarsila do Amaral, o pintor baiano tem pelo menos mais duas fases marcantes: a de quadros sem feições e a de cultura quilombola.

A primeira surgiu assim que ele se mudou para Barreiras, que concentra muitos sulistas e estrangeiros. Durante exposição com a figura predominante de sertanejos, Eduardo ouviu muita gente falar que havia situações, como a de crianças brincando de roda, parecidas em suas regiões:

“Passei a retratar personagens sem rostos para representar a figura do brasileiro de um modo geral” – explica.

A chuva chega no sertão: a nova fase do pintor. Reprodução

Na fase mais recente, os quadros mostram personagens negros e altos. Influência de visitas às comunidades quilombolas.

Atualmente, Eduardo Lima está tranquilo. Pretende permanecer em Barreiras, enquanto seus olhos se fixam em diversos países.

EXPOSIÇÃO AS CORES DO SERTÃO

 

Contato de Eduardo Lima: zap 77 9 9915 2285

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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7 reflexões sobre “O homem que colore o sertão”

  1. Cátia Maria NicoliniDisse…
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    Comecei a amar o trabalho de Eduardo Lima desde a primeira vez que vi sua pintura no face, ele é simplesmente marabilhoso! Faz com que eu veja o sertão de uma maneira alegre, bonita… Como ele mesmo citou ele pinta o sertao diferente do que sempre é exposto nas reportagens. Parabéns ao pintor e ao editor por esta matéria maravilhosa e super bem redigida Sucesso para ambos!

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      A equipe de Meus Sertões agradece por você nos acompanhar e por admirar o trabalho de Eduardo Lima assim como nós.

  2. Isaura CristinaDisse…
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    Bom dia! e
    Estou encantada com o trabalho do artista, muito lindo! Na verdade estou apaixonada por suas obras! Estarei apresentando sua biografia em nosso sarau aqui na Escola! Desejo conhecê-lo e um dia poder comprar uma de suas obras! Parabéns! Deus o abençoe!

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Isaura, ficamos felizes que você tenha conhecido e gostado desse grande artista. Por favor, nos dias quando, em qual escola e cidade você apresentará a biografia dele? Um forte abraço de toda equipe de Meus Sertões.

  3. Mateus Kneip NavarroDisse…
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    Muito bacana, admirável!

  4. Eliene CaldasDisse…
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    Admiro muito os trabalhos de Eduardo Lima. Acho inspirador, alegres, brasileiro… enfim, um verdadeiro artista, representa muito bem o nosso povo, o nosso país…

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Concordamos contigo Eliene. O trabalho de Eduardo Lima é uma das riquezas do sertão.

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