Mês: fevereiro 2017

Fazenda Gatos de Macururé

Maria Gildete Rodrigues Silva, proprietária em parceria com irmãos e um cunhado da Fazenda Gatos, a 18 km da sede do município de Macururé, dá um depoimento sobre como se tornou produtora de animais, após se aposentar como professora do estado. Ela fala dos custos elevados para manter os animais na região, pois precisa pagar por água e ração nos períodos de seca prolongada.

Criados soltos, os bichos chegam a percorrer 24 km em busca de água. Mesmo sem vacinar o rebanho,  a proprietária comemora o fato de nenhum animal ter morrido ano passado.

Em conversa na casa paroquial de Macururé, Gildete disse tem fé que choverá em breve. Por enquanto, a notícia é que chuva de pouca intensidade caiu esta semana para os lados de Euclides da Cunha, a 175 km de distância. Ela sonha em adquirir uma forrageira. Pede mais união entre os criadores e diz que ganhou gosto pela atividade, apesar da estiagem.

Leia o depoimento na íntegra

Nossa propriedade fica a 18 km do centro de Macururé. Tem o nome de Fazenda Gatos. É roça. Meu pai faleceu há 10 anos, era ele é quem cuidava de tudo. Agora minha mãe está doente e a gente é que vai lá de vez em quando. Eu e meus três irmãos. Tem um rebanho pequeno, criado preso. Depois que meu pai faleceu nós temos poucas cabeças, juntando com os cabritos dá uns 50. Criamos preso porque meus irmãos trabalham, minha mãe não pode mais ficar lá. A gente cria porque já vem de geração, o pai gostava, agora os filhos…

Eu mesmo trabalhava fora da fazenda. Tem pouco tempo que me aposentei. Eu era professora estadual. Não tinha muito costume com criação, agora estou começando a ir para a roça. Quando eu trabalhava eu quase não andava para lá. Estou responsável pela criação de 2014 para cá.

Fui aprendendo aos pouquinhos, vendo meu irmão e meu cunhado. Meu cunhado é o mais forte mesmo. A gente tem até os dias de ir para lá. Hoje mesmo (dia 9 de fevereiro) eu fui. Meu dia é quinta-feira. Meu cunhado é o que mais vai. Vai uns três dias na semana. Eu vou às quintas e aos sábados.

Quando eu chego lá, tem uma água na cisterna que a gente compra. E aí já pega uma bombinha pequena e puxa essa água para a roça onde estão os animais. E todas as vezes que nós vamos lá, temos que dar ração, milho. Milho para a criação.

A gente vai lá para dar comida e água e vem embora. E tem uns pés de árvore que é o juazeiro, a caraibeira, que cortamos para eles comerem. Cortamos os galhos mais baixos.

Os alimentos são depositados em pneus e nos cochos (bebedouro ou comedouro para o gado, semelhante ao tronco escavado) feito de uma madeira chamada mulungu. No meu dia, eu levo um rapaz para me ajudar.

Os animais estavam numa roça e a gente estava vendo que não tinha mais nada para eles comerem e fizemos uma mudança para outra roça, que pelo menos tem folha seca. A gente ficou com uma pequena quantidade de cabeças porque não tem quem cuide. Tem uma pessoa para a gente alugar (pagar diária quando preciso), para ficar não tem. No lugar, as pessoas mais novas já saíram para estudar, para trabalhar, não tem muita gente não. A gente só cria porque vem de herança, aquela vontade mesmo…

Normalmente às quintas, fico até às 11 horas. E no sábado fico o dia inteiro. A gente vai e faz o almoço lá mesmo e já fica até segunda-feira.

A última grande chuva, que criou muita água, foi há um ano. Fica muito afastado. Chove, dá aquela chuva boa que enche tudo, mas aí fica um tempo. Agora secou tudo.

Esses dias mesmos, eu estava vendo com o pessoal de lá, tem um poço e a gente foi desentupir esse poço. Pagamos caro para o rapaz vir desentupir. Agora me juntei com os outros vizinhos e compramos uma bomba porque teve um rapaz lá que encontrou nove cabeças de criação mortas de sede.  Mas graças a Deus, de terça-feira para cá, o poço está funcionando porque a gente também cria algumas cabecinhas de gado, que ficam foram ficaram. Gado  são umas 20 cabeças.

“OS BOIS JÁ ANDARAM 24 KM ATRÁS DE ÁGUA”

O gado é criado solto. A gente só vê aquelas que estão mais fracas e a gente prende para dar uma ração. Inclusive agora elas não encontraram água para beber, a gente soube que elas estão numa fazenda a 24 km de distância de nossa propriedade atrás de água. Agora foi que nós providenciamos água. O gado tem um rapaz que olha o de outras pessoas, olha o dele e olha o nosso também.

Em torno de nove pessoas, vizinhos se uniram para comprar a bomba, que custou R$ 1.800, divididos em quatro vezes. A gente teve que pagar tudo. Teve que ir com o eletricista para fazer o padrão. Já veio outro para colocar os fios. Estamos devendo R$ 1.057, que é da mão de obra.

O rapaz que toma conta do gado só recebe quando, por exemplo, agora mesmo, esse gado está pra lá e nós temos que mandar ele buscar. Inclusive ele observa os nossos animais e fica dizendo, “vaca tal, garrote tal não está mais no meio das outras”. Só que tem que pagar para ele ir buscar onde estiver. Às vezes as vacas se afastam com outro gado.

Também para ferrar os bezerros, para assinar, a gente tem que pagar. Meu pai até que fazia isso. É algo que a gente tem que aprender. Os bodes, meu irmão e meu cunhado sabem marcar.

Planto um pedaço pequeno de capim. Só isso que a gente tem mesmo. O resto é comprado, o milho, o farelo. A gente faz é comprar água para os animais. Eu tenho muita vontade que a gente tivesse água para os animais. Inclusive porque a água desse poço é salgada, acho que não serve muito para as plantações. Só para os animais mesmo.

Eu estava conversando com o pessoal lá e disse assim: “Eu vou enfrentar isso aqui, mas eu quero união” porque é um pessoal assim, uma minoria, é um pouco desunido. Um rapaz veio com isso aí (projeto de dessalinização que costuma ser implantado para tirar o sal da água em áreas com pouquíssimas chuvas. Aí um ficou dizendo “vai para minha propriedade”, aí o outro, “não fica aqui”. Aí o rapaz disse, eu vou embora porque vocês só  ficam discutindo

O rapaz que veio era do governo. Nem sei dizer direito de que órgão porque quem estava era uma prima minha, que me contou o que aconteceu.

Cisterna eu tenho. Foi feita uma cisterna calçadão pelo  Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA). tinha outra colocada pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

“É NO VERDE QUE VOCÊS TEM QUE GUARDAR AS COISAS PARA O VERÃO”

Nós já participamos dos encontros do IRPAA e aprendemos algumas coisa. Já era para termos feito algo, mas não fizemos. O rapaz falou que a folha da catingueira era boa que fosse tirado, guardado. Ele falou: “É no verde que vocês tem que guardar as coisas para o verão”. Guardar as folhas verdes para depois passar na forrageira.

Nós não temos forrageira. Nem a comunidade tem. Lá tem uma associação, mas o povo briga muito. Aí fica difícil. Porque só se consegue essas coisas mais através da associação.

Quando eu cheguei na comunidade, mesmo, já tinha a associação – antes eu ficava mais na cidade. Agora que eu resolvi ver esse negócio mesmo desse poço. Eu disse: “Minha gente, como é que tem um poço que é 14 mil litros de água por hora e a gente deixa aí abandonado. E os animais passando sede”. Aí enfrentei.

Vou até ligar para o menino (técnico) que veio aqui para ver como faz para analisar a água desse poço. Quando ele veio, ele ensinou a fazer o veneninho que coloca nas plantas para não dar praga sem ser esse que faz mal as pessoas.

Eu comecei a tomar gosto, se tivesse água eu plantava muita coisa. Mesmo assim, com a água comprada eu ainda planto umas coisinhas lá. O caminhão pipa cobra de R$ 130 a R$ 150 por nove mil litros. O rapaz disse que a cisterna calçadão pega uns sete caminhões-pipas. Ela encheu no ano passado. Botei dois caminhões-pipas, o resto encheu com água da chuva. Ela cheia, usando só para as cabras e os bodes, durou o ano todo. O gado bovino já é outra água que eles bebem lá fora, numa barragem.

A gente tinha que ver o que tem que plantar para criar o gado mais tranquilo: a palma, capim, vários tipos de capim, o que hoje não é feito. A gente plantou um pouquinho e ele está lá, mesmo com a gente molhando dia sim, dia não. Às vezes passa dois dias sem molhar.

Os técnicos ensinaram a gente a plantar outras plantas também, o algodão de seda para passar na forrageira. Lá tem um rapaz que tem uma forrageira. E aqui também a gente pagava ao rapaz em Macururé para estar moendo alguma coisa. A gente compra algaroba, mas lá na roça também tem pés de algaroba

“A GENTE VENDE UM ANIMAL MELHORZINHO PARA COMPRAR RAÇÃO”

Quando minha mãe estava bem de saúde, fazia o requeijão, vendia. E nos dias de feira ela sempre trazia o requeijão para vender. Mas agora, ela não tem condições mais de tirar o leite. Quando a gente encontra um (animal) mais melhorzinho, a gente vende para comprar ração para dar para os outros.

Agora mesmo, engordamos uma vaca e vendemos para comprar ração. Essa vaca tinha 15 arrobas (225 kg). A gente fez mil e pouquinho, mas já tinha gastado R$ 320 de ração. Restou R$ 600 e alguma coisa.

O gado é pé-duro e os cabritos também. No tempo do meu pai, quando precisava de dinheiro vendia um bode na feira.

Aqui não tem um banco, as pessoas onde vão sacar o dinheiro, lá mesmo fazem as compras. Só tem caixa eletrônico no supermercado. Antes tinha Bradesco e caixa eletrônico do Banco do Brasil. Quando estava organizado, os ladrões vinham e roubavam.

“BARRAGEM EM TERRA DE EX-PREFEITO”

Nossa cidade é pobre, não passa nenhuma beira rio. Antes já teve grande fazendeiro, hoje não tem. Essa mulher aqui que o padre ligou agora, ela é esposa do primeiro prefeito da cidade, mas hoje ele já está tão doente, coitado. Aí, ela é que fica tomando de conta junto com os rapazes. Ele era um dos melhores criadores. Ela fala que lá é bom porque tem uma barragem, já planta alguma coisa para os animais.

Lá, só tem as pessoas mais idosas, os jovens saíram para estudar e ficaram por lá mesmo. Só que depois deu até de umas famílias voltando por conta que chegou energia e, não é bem perto de nossa propriedade, mas já tem um poço de água boa para uma família tão pobre, tão pobre, umas das famílias mais pobres daqui, que todo mundo dizia “ê minha gente vamos ajudar”, mas hoje tem um poço lá e eles já estão plantando alguma coisa.

A energia chegou aqui em 2014. Hoje a gente sempre diz, meu pai gostava tanto da roça, mas ele não viu nada disso – energia, essa cisterna. O poço de água boa fica a uns 6 km de minha casa, o de água salgada, a um km. Se tivesse água encanada, não teria coisa melhor. Eu mesmo tenho umas plantinhas lá e vou mais lá só por isso, por conta das plantinhas também, botar água nas plantas, Minha mãe briga comigo “Menina você fica se acabando, isso não vai adiante…” Eu digo: “Vai nem que seja para os netos de meus irmãos porque eu não tenho filhos”.

‘GOSTARIA QUE MEU PAI ESTIVESSE VIVO PARA VER O QUE MUDOU”

Plantamos um pezinho de bananeira, já tiramos um cachozinho de banana. Estou começando a tomar gosto, mesmo com tanto sacrifício. Tem que gastar com combustível para chegar lá, tem que comprar a ração, tem que comprar água. É só uma coisa meio mãezona, mesmo porque a gente não ganha nada com isso.

Mas a gente tem aquele prazer. Uma coisa que já vem assim. Às vezes, eu faço assim. Meu pai dizia, “ah, eu vou cercar essa casa, mas só que ele não fez”. Sempre aquelas coisas que ele falava, eu fico com vontade de fazer. A gente pensa se eles tivessem vivos para ver tudo isso, mas é assim mesmo

Tenho um irmão também que gostava muito de roça, era igual meu pai, mas morreu novo de acidente. Agora tem outro que mora em Pernambuco, outro que mora aqui, minha irmã. Agora meu cunhado gosta muito de roça, ele disse que quando se aposentar ninguém segura ele na cidade.

Vacinação nós não estamos fazendo isso não. Até ontem uma senhora estava me falando: “Minha filha, teve um garrote lá em casa que começou se tremer todo, depois morreu”.

“O QUE TINHA VERDE ERA SÓ QUIPÁ”

Tem uma vaca que a gente se preocupou com ela, e a gente vendeu ela mais um garrote por conta que eles estavam comendo a quipá (um tipo de cactus). Eles começaram comer a quipá, o que tinha verde era só aquilo. Encheram a boca de ferida e ficavam babando, babando, não comiam mais nada. A gente botava ração e aquele sacrifício.

E aí foi que ensinaram o remédio, nem sei mais que remédio foi, que a gente colocou e também prendemos logo todos dois para dar ração. Foi AÍ que eles engordaram e a gente vendeu.

Esse ano, graças a Deus a gente cuidou mais, viu aquele que estava fraco e cuidou melhor. Mas ano passado (na verdade foi em 2015), perdemos duas vacas. Acho que estavam para lá (na caatinga) e ficaram fraquinha. A gente sem ver, sem estar mandando dar uma olhada para ver.

Esse ano de 2016, não perdemos nenhuma cabeça de gado. Agora, deixa eu ver, bode também não. Porque inclusive a gente estava vendo estes dias aquelas cabras que estavam mais fracas.  Nós colocamos elas em outra roça pequena, ao lado da maior. Para elas comerem pelo menos as folhas sequinhas que tem lá dentro.

Ainda cai um pouquinho de algaroba, inclusive a gente via que a barriga delas estava lá dentro, aquele buraco. Mas já quando foi esses dias, a gente já estava olhando tudo com a barriguinha cheia. Era fome mesmo, A gente joga aquele milho para um monte, cada uma pega um pouquinho, não é muita coisa.

‘A GENTE ESTÁ PENSANDO EM VENDER O GADO E COMPRAR MAIS BODES”

Eu acho que a gente vai terminar ficando só com os bodes e ovelhas. Vender o boi e comprar mais bode. São os nossos planos, se Deus permitir. A gente também pensou assim, vender algumas cabeças de gado e cercar mais roças, fazer mais roças. Inclusive tem roça do meu avô mesmo, que tem muitas árvores que são boas para dar comida para os bodes. E está tudo aí, a cerca caída. Então a gente está pensando assim, vender o gado, fazer essas cercas e comprar mais bode para criar assim preso.

Gostei muito de ir para esses cursos porque a gente aprende muito. Queria participar de mais. Foi o rapaz que veio, que era responsável pela cisterna calçadão, e ele de vez em quando reunia a gente, para falar, ensinar. Inclusive ele disse, é melhor vocês criarem bode do que gado. O gado bebe muita água, come muito, diferente do bode.

Fazenda Riacho Fechado

A família do criador Josimar Alves da Silva, o Mazinho, 45 anos, tem duas fazendas. Uma na comunidade Riacho Fechado e outra no povoado de Xique-Xique, ambas em Macururé. Nas propriedades estão os rebanhos dele, dos irmãos e do pai, que dá a última palavra sobre o que fazer com os animais. Mazinho frequentou encontros com entidades que ensinam os proprietários rurais a conviver com a caatinga. Aprendeu muito, mas o pai, aos 81 anos, recusa novidades. …Ler mais.

Samba de roda e cuia em Riachão

Zuza não sabia que sua história ia dar samba quando arrumou uma namorada em Riachão de Jacuípe. Casado, foi morar em um lugarejo a seis quilômetros da sede do município. Para se divertir, o agricultor se juntou a José Roçadinho e outros amigos afim de cantar e tocar instrumentos. Foi assim, “meio por acaso”, como diz o bisneto do fundador Misael Carneiro Oliveira, 79 anos, que surgiu, há cerca de 140 anos, o Samba de Pedrinhas, o mais antigo grupo de samba de roda de Riachão.

Misael, criador de gado, ex-vereador, líder do conjunto e tocador de cuia, vem de uma linhagem de sambadores, mas corre o risco de não fazer sucessor. Seguiu os passos e a cadência do bisavô Zuza, do avô Primitivo Pedro Carneiro, do pai Elias José Oliveira e dos tios Pedro, Isídrio e Argemiro. Outro componente de destaque foi Totonho, cuja filha guarda um caderno com letras de chulas e batuques da década de 1930. As músicas tratam de temas como a seca de 32 e a atuação de antigos intendentes.

A brincadeira começou a ficar mais séria no tempo de Elias. Pedrinhas já era um povoado com 20 casas de pessoas da mesma família. O patriarca e dois de seus filhos – um deles Misael, então com 10 anos – participavam e cantavam o Boi de Roça ou Batalhão, tradição que consiste em reunir trabalhadores rurais para fazer a colheita da roça de um vizinho. O serviço é feito regado à cantoria, cachaça e alimentação farta. A prática está se extinguindo.

“Funcionava como uma associação na época. O sujeito tinha uma propriedade de milho. Um vizinho juntava 30, 50, 60 homens e ficava responsável pelo povo. Sem o dono da plantação saber, às quatro horas da manhã, todos apareciam e cantavam: ‘Levanta o boi que ele está a deitar/ E traz a cachaça, mã, para rapaziada/ Boi, iá, iá’. Aí, tinha uma ‘foguetagem’ danada, bomba… O cara acordava doidinho atrás de carneiro, porco… Era bem cedo, então ele tinha tempo de providenciar as coisas. No final do dia o milho estava todo limpo” – conta Misael.

Chulas e batuques animavam ainda a bata do feijão e a descasca (ou despalha) do milho, igualmente realizados em troca de bebida e alimentação. Para soltar os grãos das cascas eram usadas varas de icó de 3 m de altura. Em parcelas (parcerias, duplas), os trabalhadores faziam cantorias e batiam nas vagens.

“Quando um ia, o outro vinha. As batidas soavam assim: ‘pra, pra, pra’” – explica o músico.

Já o milho é debulhado a golpes de porrete

“Fiz uma empreitada com meu tio Isidrio uma vez. Bati 25 sacos de milho até o meio-dia. A música que cantávamos lembro até hoje: ‘O milho tá no feijão/ O pendão tá na fulô/ Ô, Riachão, onde anda meu amor? / Onde anda meu amor? / Onde anda meu amor?”

HISTÓRIAS DE AMOR E DE RAPOSAS

Os autores das letras dos sambas se inspiravam em histórias de amor, de labuta, de raposas, coisas do cotidiano no campo.

“Você quebrou meu pires na pila do café/ Você paga meu pires pelo preço que eu quiser/ Pelo preço que eu quiser.”

O samba de roda encerra outro ritual que começa com a reza de terços ou missa realizada em uma propriedade rural. Ao fim do ato religioso, muitas vezes realizado como pagamento de uma promessa, ocorre o leilão, cujo principal personagem é o “cantador”. De sua atuação depende o valor que será arrecadado. Quanto mais engraçado e criativo o leiloeiro, maiores os lances. Em Riachão, Gago e Zezé de Tio João são famosos.

A disputa para arrematar uma lata de sardinha, uma galinha, um pacote de bolacha e outras coisas simples, cuja renda será revertida para ajudar alguém, muitas vezes serve para um rapaz revelar seus sentimentos por uma moça. O objeto que ele adquire é oferecido para ela. Muitos namoros começam assim.

O leilão, onde homens e mulheres se juntam, serve para quebrar o gelo antes de mais duas partes profanas da cerimônia. A cantiga de roda e o samba. Uma das versões para o nome samba de roda é que enquanto as mulheres faziam as cirandas no terreno, os homens tocavam dentro das casas. Eram sambas e rodas.

“Essa dança foi uma forma que a mulher do campo encontrou para se mostrar para os rapazes numa época em que elas eram criadas com muito rigor” – diz o jornalista e produtor cultural Evandro Matos.

A fogueira era acessa para espantar o frio. E a música varava a noite.

“É importante lembrar que o samba tem ordem. Ele começa a ser cantado pelo líder e seu parceiro, depois é a vez da parcela que está à direita. E vai assim até chegar de novo no líder. Aí, quando volta para mim, a chula, uma história cantada, termina e é a vez do batuque, que tem uma letra menor” – explica Misael.

ESTRANHA PONTUAÇÃO

O sindicato dos trabalhadores rurais de Riachão de Jacuípe todo ano promove uma festa para escolher o melhor samba de roda. Em 2004, o pessoal das Pedrinhas perdeu a competição por dois décimos. Nunca houve no regulamento referência a este tipo de pontuação. Então, para se vingar do que consideraram uma estratégia para favorecer aos cantadores do povoado da Chapada, os derrotados fizeram a seguinte chula:

“O samba do sindicato, no ano 2004, foi o povo quem falou/ O samba do sindicato, no ano 2004, foi o povo quem falou / Birosca chega atrasado/ Chamando pra todo lado/ Atrás de um julgador/ A mesa que ele arrumou foi (sic) três pessoas decentes/ Só não deu o samba a gente/ porque não são sambador (sic)/ Foi o povo quem falou/ Foi o povo quem falou/ Quem fala agora sou eu/ Até décimo apareceu / Na soma que ele somou.”

Há diferença na formação, nos instrumentos e na forma de cantar dos grupos de samba de roda baianos. As variações dependem das influências de cada região.

Em Riachão do Jacuípe, os instrumentos utilizados tradicionalmente são a cuia –  antes feita de cabaça; hoje, com a mesma fibra usada para fazer capacetes -, a parte metálica da enxada, cavaquinho, pandeiro e violão. Alguns componentes utilizam apenas as palmas das mãos.

No passado, o Samba de Pedrinha tinha seis parcelas. Atualmente, tem três. No passado, Totonho, recorda Misael, chegou a sambar três dias e três noites, indo de fazenda em fazenda para participar do Boi Roubado. Este tipo de boi é parecido com o de roça, só que de caráter lúdico.

Nos primeiros sambas, só os homens dançavam. A partir dos anos 1970/80, as mulheres passaram a rodopiar no meio da roda, o que passou a ser evitado pelos parceiros.

A cachaça é um componente importante durante as rodas. É servida pinga pura para molhar o bico dos cantadores.

Uma norma não pode ser desrespeitada. Quem trata a chula, é o dono do batuque. Se alguém se atrever a pular a ordem das parcelas, a determinação é “cortar o candeeiro e meter faca para dentro”. Em outras palavras, a briga é inevitável.

Misael acrescenta que há uma variação no povoado de Fontinha, na antiga Vila do Candeal, onde os sambadores, no fim da festa puxavam seus facões e tentavam cortar uns aos outros. Quando o primeiro era ferido, terminava a cantoria.

A atual formação do Samba de Pedrinhas conta com Valdemar (cavaquinho), Louro Preto (pandeiro), Louro Preto (pandeiro), Raimundo (pandeiro), Edílson e Pedro (palmas), Geraldo de Teresa e Misael (cuia). Evandro Matos ressalta a importância dos sambadores, mas preocupa-se com a dificuldade que eles têm para formar seus sucessores.

AS PELEJAS DE ISÍDRIO E MANOEL E A QUIXABEIRA

A fama de Isídrio e Manoel de Isaías romperam os limites de Riachão de Jacuípe. Os dois eram os preferidos dos fãs por causa da rapidez com que improvisavam chulas e batuques.

Autor de “Quixabeira”, música gravada por Carlinhos Brown, Gal Gosta, Babado Novo, Mariene de Castro, Banda Cheiro, Harmonia do Samba e Maria Bethânia, Manoel, ficou mais famoso no Brasil, mas não ganhou nada porque, inicialmente, a composição foi gravada como sendo “domínio público”.

“Alô, meu Santo Amaro / Eu vim lhe conhecer / Eu vim lhe conhecer / Sambá santamarense / Pra gente aprender / Pra gente aprender.”

No entanto, segundo Evandro Matos, graças a intermediação do jornalista Josias Pires, da TVE, e do alemão Paulo Bertrand, apaixonado pela música brasileira e com contato nas gravadoras, Manuel de Isaías recebeu duas indenizações após provar que era o autor porque havia morado na fazenda Quixabeira e no distrito de Barreiros, citados na música.

“A primeira quantia foi um cala-boca. A segunda deu para Manoelzinho, que liderava o grupo de Samba de Roda do Mocó, comprar uma casa em Riachão” – diz Evandro.

Apesar disso, nas disputas paroquiais, consta que Isídrio sempre botava o rival para correr:

“Um dizia um batuque, o outro rebatia. Tudo improvisado. Mas Isidrio era o ‘satanás’. Ele contava a vida das pessoas, cantando batuque de quadra, martelo, mourão voltado e mourão caído”, exalta Misael.

Ouça “Samba de Pedrinhas” e “Chula da Inflação” e Veja o vídeo “O Toque da Cuia”

Desenterro do cão

Sob o sol escaldante e em silêncio, o cortejo alternava o ritmo da caminhada, de acordo com o terreno. Suado, Quinho de Manoel Guarda, em passos apressados, carregava uma caixa de papelão e Ancelmo de Lourdes Libânia levava nos ombros uma pá. Dentro estava o cadáver de Mimo, um cachorro chato que foi companhia de Carmelita Cruz durante anos. Seguiam em direção a um riacho. Estavam numa missão: enterrar o animal. Tinham sido pagos para a tarefa. Mas não queriam cumprir o acordado. …Ler mais.