A ascensão de Conselheiro

A ascensão de Conselheiro

Jaime Cardoso Campos, 49 anos, filho de Uauá, estabelecido em Monte Santo, tem seis profissões, mas duas destacam-se. A de dono de um serviço de som, de onde retira a maior parte da renda de sua família, e a de escultor, que ele prefere, mas não lhe dá o reconhecimento que espera.

Campos chegou à cidade das romarias do noroeste baiano em 1986. Levava  com ele 286 esculturas  –  dele e de um amigo  – para uma exposição. E foi ficando. O tempo passou e ele vendeu 60 peças. O dinheiro custeou as despesas do parto de sua mulher.

Nos primeiros anos, sobreviveu fazendo ex-votos, que os romeiros chamam de escultura para pagar promessas. Cobrava, em dinheiro atual, cerca de R$ 50 por peça. Com o tempo, desistiu da atividade.

“Há um permanente desvalor em cima da cultura do outro. É de arrombar. Os aleijados encomendavam as peças. Só queriam a parte que tinha sido curada. Como iam deixar na igreja, tentavam baixar o preço, sem reconhecer a qualidade do trabalho”.

Ele também desistiu de esculpir imagens de santos em madeira depois que leu, no Velho Testamento, críticas aos fazedores e adoradores de imagens. Aos poucos, foi assumindo outras funções: marceneiro, aplicador de sinteco, aplicador de películas em carros e técnico de eletrônica.

queda e ascensão

No dia 24 de novembro de 2015, um fato faria Jaime reassumir seu lado artístico. Um grupo de adolescentes foi fazer selfie na estátua de Antônio Conselheiro, na praça Monsenhor Berenguer, centro de Monte Santo. Sem manutenção desde a instalação, nos anos 1980, e destruída por cupins, a imensa escultura em cedro desabou. Por pouco, não atingiu os jovens.

O homem que levantou Antônio Conselheiro
A escultura restaurada (E), a imagem do dia da queda e o estrago feito pelos cupins nos pés da imagem.

Jaime foi chamado às pressas para restaurar a imagem. E passou os três meses seguintes nesta função.

“Só o tronco permaneceu intacto. Tive que fazer um novo braço, novos pés (“ficou melhor do que era”) e reconstituir a cabeça, que estava oca”.

Preencher a cabeça que os cupins deixaram oca deu trabalho. Foi preciso fazer o preenchimento com pó de madeira, cola e cimento. Mais difícil foi encontrar o extrato de nogueira, usado para dar a cor de Conselheiro. Só encontrou o material em São Paulo.

Pouco antes do início da Semana Santa deste ano, a estátua foi recolocada na praça, na presença de políticos locais. Conselheiro ficou de costas para o canhão, que era conhecido como “matadeira”.

“E o que o senhor acha de Antônio Conselheiro?”
 “Era um fanatizado”.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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