O coureiro

O coureiro

No início, como a maioria dos meninos, José Alberto, o Betão, apaixonou-se  por uma bola de futebol. Nos campos de várzea de Canudos e das cidades da região, ele se formou em centroavante. Encarava os zagueiros botinudos e os mais habilidosos. Ganhou fama de brocador, que o levou a disputar três campeonatos baianos pelo Atlético de Alagoinhas e Jacobina e um, sergipano, defendendo o Olímpico, de Itabaianinha, entre 1991 e 1994.

Dois motivos o levaram a abandonar a profissão de jogador profissional: os resultados em campo não eram bons e a constatação de que ganhava mais em competições amadoras.

 “Eram R$ 200 por jogo que disputava. Como profissional, minha carteira era assinada com valor acima de um salário mínimo, mas, na prática, não recebíamos isso nem a comida que prometiam.”

Foi assim que Betão lançou-se de corpo e alma na disputa de um dos maiores campeonatos de futebol do mundo, o intermunicipal baiano de seleções, em que foram descobertos jogadores como Edílson Capetinha, Liédson, Júnior, Júnior Baiano, Charlie Fabian, Neto Berola e Bobô  – alguns deles foram parar na Seleção Brasileira.

Betão não chegou nem perto disso: disputou 15 competições e seu melhor resultado foi o vice-campeonato, em 2002, defendendo a seleção de Euclides da Cunha.

Quando parou de disputar a competição, montou uma escolinha de futebol, que tem cerca de 30 meninos, e registrou a Liga de Canudos.

 ESCOLINHA

A escolinha do centroavante é rigorosa e, ao mesmo tempo, generosa com seus atletas. Dos inscritos, só cinco, que têm condições, pagam a mensalidade. Mas, se o dinheiro não é problema, outras exigências podem tirar o menino do grupo.

 “Se xingar qualquer nome durante um treino ou jogo, fica três minutos de castigo. A cobrança é tanta que, quando eles falam um palavrão em casa, perguntam à mãe se o Betão vai tirar eles do time.”

Atuando como uma espécie de juiz de tribunal desportivo, o ex-jogador profissional também aplica punições para quem briga na rua. Dependendo da gravidade do conflito, a pena pode chegar a um mês de suspensão.

 “Um garoto bateu no outro porque ele não quis dar uma bala. Foram 15 dias de gancho.”

A Liga de Canudos nunca foi ativada, o estádio da cidade está há 16 anos à espera de alambrado e grama. Segundo ele, para piorar, a prefeitura de Canudos só atrapalha.

De vez em quando, um projeto esportivo para crianças é lançado no município. Betão conta que, além de tirar os alunos de sua escolinha, nestas épocas, a prefeitura oferece R$ 800 para os professores, mas só paga R$ 300. “E só pega funcionário municipal para participar. Eu não aceito isso”, diz.

Betão ainda joga bola. Muita gente vai pegá-lo em casa para uma partida. Mas, de uns tempos para cá, passou a queixar-se de dores no nervo ciático, mas não desiste dos esportes. Ele nada no açude de Cocorobó diariamente.

 criação de peixes

Enquanto tenta revelar um craque que lhe dará uma vida melhor, Betão, 50 anos, dois filhos, tenta sobreviver de outras formas. Há dez anos, recebeu do governo tanques, redes, ração e treinamento do Sebrae para criar tilápias, que chegam a pesar 1 kg em seis meses. Soltas no açude, atingem 3 kg na fase adulta.

Piscicultores do açude de Cocorobó, como Betão, costumam ter suas criações roubadas à noite. Foto: Paulo Oliveira
Piscicultores do açude costumam ter suas criações roubadas à noite

O centroavante aprendeu a extrair o óleo do peixe, que é usado na indústria de cosméticos, e a curtir o couro. É nesta atividade que o lucro é maior. Segundo Betão, uma sandália com duas tirinhas de couro custa R$ 400. Ele não revela o segredo para curtir a pele da tilápia. Dá apenas duas pistas: usa cascas de árvores, uma delas é a jurema.

Nos primeiros anos do projeto, que teria como madrinha a senadora Lídice da Mata, o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca enviou 250 viveiros para a colônia de pesca instalada na margem do açude. No início, tinha peixe em abundância, mas nem o centroavante nem os demais pescadores conseguiram driblar os ladrões.

Primeiro surrupiaram, à noite, quando não há vigilância no açude, 5.000 peixes (o equivalente a 500 kg) dos tanques do centroavante. As gaiolas também foram redistribuídas para outros lugares. Depois, vieram as doenças (“um fungo que dá nas escamas, faz ferida, e o peixe ‘já era’. E outra que faz os olhos deles estourarem”). O projeto foi deixado de lado pela maioria.

Como consequência, hoje não há peixe suficiente para a Semana Santa, e a colônia está, praticamente, desativada.

Betão é o único que não perde a esperança de recuperar o negócio. Ele pretende comprar alevinos, de 30 g a 50 g, mais resistentes para colocar 100 deles em cada gaiola. O preço da ração, R$ 32 por sacos de 25 kg, é o que mais o assusta. São consumidos até cinco sacos por dia.

Chuteiras e sofás

Sem desistir de concretizar os sonhos, o centroavante cinquentão permanece ativo. Fora da escolinha e ainda sem peixes, ele se dedica à profissão de estofador. Enquanto falávamos, um sofá e poltronas chegaram para ser reconstituídos. Os tecidos e o couro – em menor parcela – que usa para cobri-los é comprado em Feira de Santana, a verdadeira capital baiana para os moradores do sertão.

O ex-jogador também se vangloria de fazer chuteira de couro de bode, com a qual joga futebol e deixa os colegas com ciúmes.

“Vivem pedindo para que eu faça chuteiras para eles.”

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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